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FILME

“ESTÔMAGO” de Marcus Jorge

Estômago

Foto: divulgação

Um jeito saboroso de falar sobre os afetos e poderes

Filme

ESTÔMAGO - Filme de Marcus Jorge

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Há cerca de 100 anos, no início do século passado, um certo Sigmund Freud provocou uma discussão sobre o papel e o valor do erotismo para a constituição dos indivíduos. Das muitas questões e polêmicas suscitadas, algumas diziam respeito ao que o mestre vienense chamava de erotismo oral. Para ele a experiência do prazer oral passava necessariamente pelo fato da amamentação e implicava uma dupla vertente: a biológica (precisamos nos alimentar para viver) e a erótica (não só saciamos nossa necessidade, mas temos um prazer na ingestão dos alimentos). Assim, o trajeto que vai da boca ao estômago é de grande nobreza, posto que ele está nas origens da vida e do gozo sexual, coisas que nem sempre se conjuntam, mas permanecem tramando para os destinos da subjetividade. Então, fica claro que os poderes do alimento (e de quem o prepara) tanto quanto os poderes do corpo em festa pela dupla conquista são soberanos.

O argumento de “estômago” parece partir dessa idéias, embora sua trama traga outros elementos ligados ao “prato” erótico: a pobreza e a indigência como dado real a expor os indivíduos a todo tipo de situações – de exploração, mas também de solidariedade -, a possibilidade de exercício do poder a partir de pequenos e miúdos atos, ligados a interesses comuns e locais, os vários atravessamentos da fala e dos atos colocando ambos em lugares invertidos e coincidentes, enfim, a força e “sem sentido” dos muitos afetos que nos percorrem, fadados a se gastarem sem pudor, expressando o (e no) corpo em suas múltiplas facetas, algumas delas inquietantes e sinistras.

A trajetória do protagonista Raimundo Nonato – seus encontros, conquistas e desventuras, além sua peculiar relação com as palavras – assume ares épicos (ainda que às avessas) quando nos apercebemos que seu encanto emana da estranheza e simplicidade (a princípio ingênua, depois violenta) com que se projeta na vida que lhe cabe viver. Suas descobertas sobre a arte de cozinhar, o uso desta habilidade como perspectiva de forjar uma identidade que não se limita a permanecer fixa numa maquinaria culinária e o modo como explora, nos universos freqüenta, o poder de encantar e seduzir, são pontos que o filme trabalha com muita delicadeza, impondo nem tanto uma identificação com sua figura e seus gestos, porém colocando-nos ao lado dele, a ponto de compreender seus motivos e bizarrices (que não são poucas!).

Do mesmo modo, as figuras que vão aparecendo em seu caminho – não menos curiosas e fascinantes – como a prostituta Iria e o seu Giovanni (dentre outros), são referências importantes para caracterizar os vários aspectos de sua trajetória, vale dizer, empobrecida e marginalizada.

Talvez o fascínio do filme e da história que ele conta venha do roteiro inteligente e que se organiza de um modo a só nos permitir dar um sentido claro para as coisas nas cenas finais. Até lá vamos acompanhando dois momentos bastante distintos da vida do “herói”, sem entender muito bem como um se transformou no outro, tendo apenas alguns poucos indícios, os quais não favorecem previsões. Além disso, o modo visceral com que as cenas são filmadas (com ângulos e movimentos pouco convencionais), a ótima atuação de todo o elenco (destacando, claro, João Miguel) e a música capaz de pontuar com todo o ardor as sutilezas e reviravoltas da trama fazem do filme um primoroso exercício de reflexão sobre a capacidade do cinema de produzir intensidades e acontecimentos que não demandam se reportar a outras cenas que não aquelas que se desenrolam diante de nós, na sala de projeção (não bastassem as cenas que inventamos com nosso imaginário singular).

É sabido que “Estômago” foi muito premiado e a cada dia conquista mais platéias. Não é sem motivo. O trabalho de Marcus Jorge é esmerado e obriga a considerar os humanos sem idealidades e hipocrisias, posturas que o tal Sigmund a que me referia acima subscreveria como exigências éticas, estéticas e políticas de sua pesquisa. Poderíamos acrescentar, também de nossas vidas.

Vá ver o quanto antes.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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