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"FALSA LOURA" de Carlos Reichenbach

Falsa Loura

Foto: divulgação

Erudição e simplicidade para tratar das idealizações e seus destinos

Filme

"FALSA LOURA" de Carlos Reichenbach

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Silmara é uma jovem e bela operária, desejada pelos homens e admirada pelas companheiras de trabalho, pela beleza e também pelo senso ético. Vive na periferia de São Paulo, numa casa muito simples em companhia do pai, Antero (figura uma tanto sinistra, com uma pecha de incendiário e marcas que vão além daquelas visíveis em seu rosto) a quem Silmara sustenta com o salário da fábrica e outros biscates. Possui um irmão assumidamente homossexual que nutre profundo ódio pelo pai a quem culpa no episódio de separação da mãe. Além de ser ligada à família, Silmara, como todas as moças de seu meio, acalenta seus sonhos eróticos ligados a figuras artísticas do mundo musical, que ocupam um lugar princeps no imaginário forjado no cotidiano da cultura de massa, fazendo apelo como agenciadores de desejos e símbolos sexuais.

Silmara com seu estilo sexualmente agressivo (a ponto de incomodar as próprias colegas/amigas mais conservadoras) irá com eles se encontrar, realizando os seus e os sonhos de suas admiradoras. Flertará com um grande sucesso diante dos mais próximos e merecerá os devidos aplausos (literais, numa bela e emblemática cena) pelo modo inesperado de exercício do poder que materializa. Mas esta realização (e prazer!) algo transgressiva virá acompanhada de dores e desilusões, resultantes da imersão real de Silmara num universo que desconhece e que a desqualifica. Mais um melodrama sobre o destino cruel de uma operária no mundo burguês?

No primeiro “quadro” do novo filme de Carlos Reichenbach vê-se uma epígrafe com um dito socrático sobre as paradoxais relações entre prazer e desprazer. Essa provocação por si só já diz de um certo projeto e intenção. Ao longo do filme Sócrates comparecerá duas vezes mais, numa delas para sugerir a positividade da experiência de despojamento diante da vida com a conseqüente transformação e efeito de ruptura nas/das experiências – numa cena das mais provocativas, inclusive pelo inegável caráter erótico. É sem dúvida um convite à reflexão e a prova de que não se quer apenas contar uma simples estória sobre operárias e suas desilusões.

Contudo, essa erudição não desvia o foco principal do trabalho, qual seja, o de falar de um modo simples e direto de gente simples, mostrando sem moralismos e hipocrisias sua linguagem, gestos, cotidiano e, é claro, sonhos e desejos de afirmação. Nesta trilha, não apenas a protagonista é retratada com rigor crítico (sem direito a redenção em sua queda final) como também o atravessamento de universos tão díspares em seus valores e afirmações de vida é pensado em alguns de seus efeitos, inclusive os mais perversos e aviltantes. Pior para Silmara tornada um mero objeto descartável na vida do roqueiro bad boy Bruno e do cantor brega romântico Luís Ronaldo, seus ídolos e de todas as suas amigas e companheiras.

Seria enganoso pensar que a atmosfera que domina o filme pende para o dramático e/ou choroso. Ao contrário, o clima está mais para efusivo e sensual, retratando os percursos dos personagens, especialmente das operárias, em parte aprisionadas, é verdade, aos valores e imposições que grassam na sociedade (pós) moderna (a operária Briducha só é reconhecida em sua feminilidade quando demonstra possuir um corpo bonito, ganhando o direito a ser produzida por Silmara nos clássicos moldes da estética burguesa), mas afirmando positivamente sua adesão aos mitos e vivendo com intensidade tanto a dura labuta quanto os gozos que o corpo permite.

A bem dizer, o olhar de Reichenbach é extremamente carinhoso para com esses representantes de uma classe média, que aspira por ascensão, idealizando e até se submetendo à maquinaria da (dita) classe dominante, produzindo, porém seu jeito singular de existir, tocando a vida e experimentando as pequenas tragicomédias da vida (como a de Silmara) com dignidade.

Reichenbach nos põe diante do caráter paradoxal do percurso construído por Silmara – a um só tempo transgressor e ingênuo, prazeroso e doloroso, idealizador (dos ídolos e de si mesma) e desidealizador no limite do trágico – para nos conduzir menos a um sentimento de comiseração do que a uma constatação que as citações de Sócrates (dentre outras) permitem: sem um mínimo de transgressão, despojamento diante dos riscos que a vida oferece e coragem para realizar as expectativas, não é possível nenhum aprendizado que valha a pena, aliás, é a própria vida que perde o sentido. Ao mesmo tempo, não há possibilidade de conquistas sem perdas, quer as suportemos melhor ou não.

“Falsa Loura” é uma ótima metáfora para os tempos atuais, nos quais nos tornamos descartáveis e capturados nas imagens que em sua abundância e arrogância de tudo saber e dizer falseiam e despotencializam corpos e mentes. Tal como o filme sugere, na voz de um adolescente, é preciso estar na intimidade da falsa loura para saber porque ela é falsa. Mas aí já não há lugar para idealizações...

Desnecessário seria falar de mais um excelente trabalho de Carlos Reichenbach. Tudo é muito estimulante, as ótimas interpretações de Rosane Mulholland (a “saidinha” e ousada Silmara), Cauã Reymond (Bruno, o bad boy), Djin Sganzerla (Briducha, o patinho feio ingênuo, mesmo depois da transformação estética que a torna um mulherão desejável) são um deleite. Maurício Mattar (Luís Ronaldo, muito brega e muito cínico) também merece destaque, embora todo o elenco esteja muito bem. A trilha sonora a cargo de Nelson Ayres e Marcus Levy pontua com muita precisão e graça os vários momentos da trama, emprestando o devido toque de sensualidade, quando necessário. As músicas (uma de Paulo Ricardo, outras do próprio Reichenbach) são muito gostosas e sugerem bom humor na apreensão das situações onde comparecem. Roteiro e direção são muitos bem costurados, fiéis ao projeto de divertir, afetar e produzir reflexão. Não é isso que reconhecemos como um bom cinema?

Só resta recomendar e lembrar que “Falsa Loura” entrou em cartaz no dia 18 deste mês. Está em sua segunda semana. Torçamos para que fique bastante tempo.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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