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"IRINA PALM" de Sam Gabarsky

IRINA PALM

Foto: divulgação

Exercitando o gosto pelo insólito

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"IRINA PALM" de Sam Gabarsky

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• A viúva Maggie, distinta senhora e avó, se vê na urgência de ajudar o tratamento de seu neto que sofre de doença grave e letal. Busca trabalho, faz raspadinhas, insiste de todas as maneiras em encontrar algo que possa lhe retornar algum dinheiro. Mas fracassa na empreitada. Tudo parece caminhar para a tristeza e o drama. Até que Maggie se interessa em conhecer uma casa de sexo e... Bem, o que se passa a partir daí irá transformar radicalmente sua vida (também a de seus familiares). Surgirá Irina Palm e junto com ela um outro modo de encarar a vida, com encontros permitirão refazer seus laços afetivos. Estranho? Nem tanto. Neste filme de Sam Gabarsky a única estranheza fica por conta das (possíveis) reações constrangidas diante da trajetória de Maggie/Irina, sempre pautada, diga-se de passagem, pelo humor provocativo e a leveza na abordagem de uma temática que costuma ser objeto de grandes e lacrimosos dramalhões.

Aliás, é exatamente nesta mudança de enfoque que reside a força do filme. É certo que o tratamento dado à história da viúva que se torna uma requisitada masturbadora - numa casa onde os homens sequer a vêem - não é leviano ou bruto (não há nenhuma apologia rasteira à prostituição, nem qualquer banalização dos conflitos e sofrimentos vividos pela protagonista). Mas é também facilmente constatável que a proposta desenvolvida é a proximidade com o grotesco, se considerarmos que boa parte das cenas mostra a construção desse novo personagem na vida de Maggie, com as técnicas que aprende e desenvolve e com a curiosa maneira de tornar habitável o espaço no qual exercita (e como!) sua habilidades. Além dos laços que vão se construindo para além das expectativas mais imediatas, especialmente a aproximação como Mikki, dono da casa e de certo modo benfeitor da avó desesperada (esse aspecto da trama também comparece, claro). Também Mikki, solitário, carente e entristecido na (e pela) vida, como Maggie, revelará aos poucos uma veia mais romântica... Entrementes, somos tomados por alguns bons risos e o espanto com a sem cerimônia das passagens que caracterizam a atividade de Irina bem como o contraste com a pacata vida que leva na pequena cidade onde mora.

Há espaço para a reflexão sobre as contradições que atravessam o cotidiano e que se materializam nas (belas) passagens que mostram o percurso de Maggie da sua cidade até Londres, passagens que se repetem e a cada vez realçam suas duas vidas dissociadas. Assim como há cenas tocantes que mostram o intenso carinho nutrido pelo neto, razão maior de todo o esforço de Maggie. Mas em nenhum momento o filme descamba para o drama (mesmo quando acompanha a reação raivosa do filho, primeiro a descobrir a origem das altas somas que a mãe dispensa para o tratamento do menino). Ao contrário, quando se trata de indicar a questão propriamente moral a opção é de absolver e respeitar ao invés de disciplinar e/ou culpabilizar. Em qualquer situação é possível produzir bons e importantes encontros. Esta parece ser uma das mensagens da história.

De todo modo, há que se reconhecer o roteiro bem construído e a direção sensível de Gabarsky, além das atuações seguras de Marianne Faithfull e Miki Manoglovic (Irina e Mikki). Também Dorka Gryllus (a Luísa, personagem fundamental por ser a mestra de Irina nas técnicas masturbatórias) se destaca.

No mais é dizer que “Irina Palm” é duplamente recomendado: pelo seu lado comédia e pela sua capacidade de tornar familiar e muito próximo o que facilmente remeteríamos ao estranho e distante. Em suma, boa e inteligente diversão.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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