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"As leis da Família" de Daniel Burman

As leis da Família de Daniel Burman

Foto: divulgação

Inteligência e leveza para falar de velhas questões

Filme

"As leis da Família" de Daniel Burman

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• O encontro entre pai/filho - conflituoso pelas rivalidades (explícitas ou não) que o alimenta, paradoxal no permanente jogo de espelhos que o caracteriza e desenvolve, trágico nos efeitos de repetição e dilaceramento mútuo – já rendeu bons filmes e uma infinidade de estudos abalizados: antropológicos, sociológicos, médicos, psicanalíticos, etc. Quando se trata de pensar e dizer sobre os laços familiares que se põem, na atualidade, na afiada navalha das mutações pós-modernas, aí mesmo é que os saberes se multiplicam, especialmente na vida cotidiana. Não há quem não disponha de uma “teoria” de referência para explicar/interpretar os fatos familiares, alçando modelos e promovendo aconselhamentos de todo tipo, especialmente na tvs e em outros meios de comunicação de massa...

Mas Então, por que o filme de Daniel Burman se faz tão interessante e nos traz um sopro de novidade? O que ele tem de diferente afinal?

;Bem, em primeiro lugar, um compromisso com o (bom) humor. Ao apresentar um enredo no qual um jovem advogado se vê obrigado a reconsiderar seus valores no que tange às escolhas de vida (tal como se casar e ter filhos, por exemplo), mirando-se e batendo-se com a imagem de um pai (também advogado) que não o abandona, “Derecho de Família” (título original), opta em desconstruir os “mitos” familiares. Assim, apresenta o aspecto derrisório dos pequenos dramas, o lúdico da repetição, a grandeza das afetações que se fazem nos vários desencontros. As situações vividas pelos personagens são no mais das vezes hilariantes exatamente porque despidas de gravidade melodramática – as aulas de direito do filho-professor, com um olhar voltado para os graves temas que concernem a sua aula, e outro para as alunas, dentre elas aquela a quem devota um sentimento erótico especial, as aulas com a ex-aluna e professora de Pilates, objeto de sua paixão, os encontros com a paternidade desajeitada e com os questionamentos sobre a tradição da família, o aniversário do pai, no qual toda a ambivalência de seu amor é expresso através de um significativo esquecimento, logo amainado pela intervenção de amigos próximos. Há evidentemente um tom de certo modo dramático na busca de aproximação do pai e nas dúvidas que assolam o filho no que tange à perspectiva oferecida quanto aos destinos a seguir na profissão. Mas mesmo estes momentos são pontuados pelo riso, resultado de uma olhar que não possui a pretensão de oferecer lições de moral e afirmar modelos do “bem fazer”.

É neste último ponto, aliás, que o filme afirma uma outra diferença. Não há heroísmos espetaculares, nem didatismos de cartilha: cada encontro, com sua carga de incerteza e angústia, é tomado como positivo, inclusive (e sobretudo) quando resulta em sofrimento. Assim, estamos longe das interpretações psicologizantes e dos modelos pedagógicos com os quais nos acostumamos no cotidiano. O recurso da narração “em off” – pontuando intenções e percepções que não se compatibilizam linearmente com o que se vê – e as interpretações sempre no limite do tragicômico permitem um tratamento suave dos temas, sem que isso signifique desleixo e/ou descompromisso com uma reflexão crítica sobre os (des)caminhos das relações familiares. (As passagens que versam sobre a maneira como o casal, tendo Sandra como principal administradora, habitam a própria casa, sempre em obras e também habitada pelos seus alunos, são geniais.)

Assim, o casal protagonizado por Daniel Hendler e Julieta Diaz (esta, além de tudo, belíssima) compõe um retrato tão delicado quanto pungente do casamento à moda burguesa na atualidade. Do mesmo modo, Arturo Goetz (como o pai-advogado, do tipo “esperto” que convoca o filho para sua ética específica ao mesmo tempo em que se convoca para viver os últimos instantes de vida como o avô dedicado) se destaca.

“Derechos de família” tem um ritmo agradável e um roteiro com diálogos simples, mas inteligentes na sua proposta de chamar à reflexão sem a arrogância de oferecer grandes questões e novidades. Ao contrário, oferece diversão e entretenimento produzindo, ao final de tudo, um outro jogo de espelhos, mas neste o capturado é o espectador.

Vale a pena se divertir e se deixar capturar.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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