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"Medos Privados" de Alain Resnais

Medos Privados

Foto: divulgação

Na encruzilhada de todos esses gestos a solidão espreita sem fazer concessões

Filme

"Medos Privados" de Alain Resnais

Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Como já foi observado, a tradução aqui mais uma vez é uma traição: Coeurs (no original) que poderíamos pura e simplesmente traduzir por Corações, é o título literal e exato para a questão colocada pelo mestre Resnais: os humanos se fazem e refazem de maneira permanente também a partir dos desencontros (que não precisam ser apenas tristes, podem ter graça e fazer rir, ver a curiosa relação dos protagonistas da loja de imóveis), dos conflitos que insistem com agudeza sem que se encontre uma solução harmoniosa (e que não precisam por conta disto desembocarem em melancolia e desespero, vide o [des] encontro do ex militar com sua noiva às portas do seu, digamos, casamento), da proximidade dilacerante do familiar que impõe lembranças e afetos muitas vezes insuportáveis (o que não conduz necessariamente à fuga e violência, ao contrário pode remeter a posturas e pactos dignos), e, last but not least, dos mal entendidos e precariedades da linguagem e dos corpos (que não são negatividades, mas obrigam a um constante trabalho de invenção dos modos de existir).

Na encruzilhada de todos esses gestos a solidão espreita sem fazer concessões, sim, mas também sem descambar no melodrama superficial e xaroposo. Ao contrário, em cada cena é buscado o ponto em que os personagens se percebem dilacerados, mas inteiros nesta experiência, exatamente porque (e na medida em que) afirmam-se nesta condição, sem desprezar seus sofrimentos e afetações (não, não há calmantes nem potencializadores de performances na trilha dos personagens, exceção feita ao velho álcool e ao velho expediente de atuar as próprias fantasias eróticas).

Então, temos corações... apaixonados, oprimidos, esperançosos, iludidos, buscando um lugar de maior conforto para suas inquietudes e humores. A busca de um lugar para morar e que não termina, a não ser como corte imposto por circunstâncias fortuitas é uma metáfora interessante para pensar o desconforto do humano diante das paixões que o habitam, isto é, nele encontram sua morada. Circularidade inescapável e que Alain Resnais trabalha com sutileza e respeito nos diálogos simples, mas precisos em sua função de captar as afetações que se embaralham entre os espaços e corpos, na passagem melódica das cenas em sua maioria pontuadas pela neve que cai ininterruptamente, na coloração em tons fortes (como sugerem as paixões), nos jogos de presença/ausência (como em todas as cenas do enlouquecido pai do Barman do qual só ouvimos sua voz, e nas cenas em que ouvimos falar da proximidade identificatória de Daniel com seu pai militar).

A uma certa altura do filme dois personagens conversam na madrugada sobre as angústias e perspectivas (um tanto sombrias) de um deles e subitamente, a neve que cai com força sobre suas mãos entrelaçadas, para de cair... e isto se deve ao fato de ambos já estarem acolhidos em outro ambiente (quente e acolhedor), que só mesmo a genialidade e veia poética de Resnais torna visível. Mas é uma visibilidade que só é possível na passagem rápida das (duas) cenas, passagem ela mesmo invisível e fugaz. Tem-se a impressão de que só alcançamos a compreensão do que pretende o diretor neste intervalo, ele mesmo invisível. Tudo isso para dizer o óbvio: “Coeurs” de Alain Resnais, é imperdível, quanto mais não seja por nos receber poeticamente na estória, convocando-nos a compartilhar das estranhezas dos personagens de maneira generosa. A mesma generosidade com que somos tratados.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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