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"Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet"de Tim Burton

Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleetde Tim Burton

Foto: divulgação

Esfuziante musical sobre as múltiplas faces do trágico

Filme

Filme com Johnny Depp - Sweeney Todd

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Uma velha e importante questão sobre o cinema pensado como máquina de sonhar interroga até que ponto o envolvimento do espectador não o situa excessivamente capturado nas identificações sugeridas pelas imagens, sem alcançar a possibilidade de pensar criticamente seu próprio lugar na materialização dessa máquina. Sonhando o espectador (e pelo espectador!) um certo tipo de cinema só faria reproduzir uma espécie de comodismo, conduzido e alimentado pelo fascínio e pelo prazer mais imediato. Mas e quando, como neste e em outros trabalhos de Tim Burton (“A lenda do cavaleiro sem cabeça” por exemplo), a situação se dá pelo seu avesso? Burton parece comprar a perspectiva onírica (que existe evidentemente em todo filme) e ao invés de nos embalar suavemente em histórias nas quais nos sonharíamos apresenta de chofre este universo, explicitando-o ao extremo. Assim, convoca-nos a testemunhar o onirismo que contempla e acalenta – com os sempre estranhíssimos personagens que contempla e acalenta – sem maiores álibis. É pegar ou largar, não parece haver meio termo.

Bem, nem tudo é assim tão simples, e nesses sonhos (pesadelos, se preferirem) há uma provocação direta: acompanhar a trajetória de vidas cuja história se positiva pela tragicidade, ou, pelo menos, pela experiência abismática de encontro com o radicalmente outro de si mesmo. Isto numa atmosfera marcada pelo jogo (paradoxal) dos valores que compõem nosso imaginário, como justiça, verdade, duplicidade, amor, vingança, crueldade, dentre outros.

Nestes jogos (que também admitem velhos clichês, claro) os (anti) heróis não se resolvem em seus dilaceramentos e angústias (Edward mãos de tesoura, ser essencialmente inacabado, se arrisca sempre a ferir aqueles a quem ama, antes mesmo de suscitar o ódio e a inveja) que emanam de sua própria condição humana/inumana, mais até do que às condições específicas da vida mundana. Que existem, porém! E para delimitar um aspecto fundamental: todos os personagens retratados habitam o reino da estranheza-inquietante, com um toque especial de um grotesco capaz de positivar as figuras do horror, transformando-as em engraçadas, risíveis. Em algum momento tem-se mesmo a impressão de que Tim Burton não quer tanto metaforizar a relação dos humanos com suas feridas, mas muito mais figurar oniricamente o “fora da norma”, aquilo que se faz para além dos sentidos reconhecidos.

Assim, em “Sweeney Todd”, adaptação de um musical de sucesso na Broadway, somos ambientados numa Londres lúgubre e pobre (pobre de tão lúgubre, e lúgubre de tão pobre, parafraseando Caetano e Gil), no século XIX, palco de um retorno macabro: Benjamim Barker, homem simples, barbeiro, retorna depois de quinze anos afastado por uma prisão que não mereceu, para se encontrar, como diz logo nas primeiras cenas, com seus fantasmas. E com a possibilidade de vingar-se de seu algoz, o velhaco Juiz Turpin, que o incriminou para se apossar de sua mulher, e mais tarde de sua filha. Para materializar este intento, torna-se outro. Outro nome, outra face. Em seu retorno conhece mais detalhes do destino de sua mulher e filha pela versão da caricata senhora Lovett, figura também que guarda em sua própria face o sinistro. Juntos eles farão seus (desencontrados) planos e construirão solidariedades horrorosas e aviltantes, mas também produzirão o lúdico em suas vidas combalidas e desesperançadas. Criaturas cujos sonhos se reduzem a pouco mais do que conquistar o direito a buscar, em meio à miséria que os domina, a centelha de alegria e reconhecimento que não tiveram.

Neste cenário comparece também o jovem marinheiro Anthony, uma espécie de apaixonado inocente, responsável pelo retorno de Barker, o signor Pirelli, barbeiro que vive de biscates e pequenas desonestidades cotidianas, Tobi, um “menino de rua” que vive ao sabor das benfeitorias que por acaso recebe, Johanna, (filha de Barker) a menina aprisionada pelo malvado Turpin (que por ela nutre uma louca paixão), literalmente sem pai e mãe, e a mendiga que circula anônima pelas ruas de Londres, anonimato que se revelará absolutamente trágico ao final da trama. É pouco?

Tudo isso embalado por uma música com claros contornos operísticos, cantada com graça e leveza por cada um dos personagens. Todos eles no limite da humanidade, em suas torpezas e entregas às mais variadas paixões. É óbvio que o clima fantasmagórico dá o tom deste filme. É ele que atravessa os olhares dilacerados e repletos de ódio de Barker-Todd, a expressão insinuante e cínica da Sra Lovett, até mesmo as andanças do casal apaixonado Anthony-Johanna. Mas não conseguimos nos furtar do tom de comédia que aqui ou acolá pulula, assim como a lembrar que os humanos são também (e muito!) ridículos. E porque não? Basta ver com atenção os dizeres e movimentos do Signor Pirelli, para ficar num exemplo, apenas.

Falar sobre o andamento da trama seria retirar a graça do filme. Em muitos momentos roteiro e direção se apoiam na perspectiva do thriller e suspense. Basta dizer que ao abordar a duplicidade do barbeiro, Burton toca a questão do trágico como inescapável na medida em que trabalha com eficiência as nuances onde Benjamim Barker e Sweeney Todd se digladiam e se encarnam simultaneamente. Pouco a pouco é a Sweeney Todd que as ações se rendem, é também por se ver tomado por ele, que o bom barbeiro Barker encontrará sua ruína...

Para compor este magnífico quadro cinematográfico Burton conta com sua “tropa de elite”. Primeiro e acima de todos Johnny Depp (mais uma vez excepcional) e Helena Bonham Carter (ótima e, sobretudo ambígua na medida certa). Alan Rickman (o juiz Turpin, com quem Todd protagoniza algumas das mais emblemáticas e belas cenas do filme, em duetos deliciosos) está muito bem. A participação de Sacha Baron Cohen (Pirelli) é deliciosa. Todos cantam (e bem!) as ótimas músicas e letras de Stephen Sondheim vivendo e afirmando seus personagens sem buscar justificá-los ou condená-los. Na verdade todo o elenco funciona na medida exata da intensidade da trama. Desnecessário falar da fotografia e dos efeitos especiais. Afinal, um barbeiro que manobra uma lâmina de maneira tão “eficaz” merecia um bom acompanhamento tecnológico (modestos, à luz de outras produções, diga-se de passagem).

Para finalizar, lembremos que a personalidade conturbada de Todd apenas sinaliza a adjetivação do título. Na verdade, o demoníaco está presente em muitos lugares e personagens. Na violência doentia e arrogante do juiz Turpin, nos esgares animalescos das meninas do hospício de onde Johanna é resgata pelo seu consorte, no desespero delirante da mendiga –velha que observa com sabedoria as movimentações das ruas da cidade, nas proposições alucinadas da Sra Lovett, nos arroubos apaixonados do marinheiro Anthony. Parece mesmo que o demoníaco é o que há de mais próprio à experiência de cada personagem.

        Então, vá logo conferir. Mas, vá com cuidado; a navalha de Burton e cia está bem afiada.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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