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FILME

“O Búfalo Da Noite” de Jorge Hernandez Aldana

O Búfalo da Noite

Foto: divulgação

Ousado thriller sobre os dilaceramentos da paixão e do sexo

Filme

“O Búfalo Da Noite” de Jorge Hernandez Aldana

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Um dos bons destaques do recente “FEST RIO” o filme “O Búfalo Da noite” é uma adaptação do romance de Guillermo Arriaga, conhecido escritor e roteirista responsável (junto com seu parceiro, o diretor Alejandro Iñárritu) por trabalhos consagrados como “21 gramas e ”Babel”.

Nesta estória sua verve provocativa nos põe diante de um universo habitado de cima a baixo pela “desrazão” – seja na experiência esquizofrênica de Gregório (Armando Hernandez), que pouco a pouco se intensifica até chegar a automutilação e suicídio, seja no encontro-jogo sexual que se dá entre Manuel (Diego Luna) e Tânia (Liz Gallardo), marcado pela desmedida e pela culpa que teima em assombrá-los a partir da morte de Gregório, que também havia namorado Tânia. O interessante é que neste insólito e trágico triângulo amoroso a grande amizade e proximidade de Manuel e Gregório ocupam um lugar fundamental: entre eles se tece uma cumplicidade tal que a própria loucura que vai se apoderando de um implica obriga o outro - a tatuagem do búfalo, espécie de totem, que ambos passam a ostentar, sela não apenas a amizade como também um destino similar para ambos. Numa fortíssima cena onde Manuel tenta arrancar a tatuagem com uma tesoura, observamos uma macabra ressonância com as mutilações que Gregório em outro momento levou a cabo.

Mas ainda há mais. A paixão entre Tânia e Manuel (regada a generosas cenas de sexo e nudez) atinge as raias do desvario quando Manuel recebe um “presente” do falecido: uma caixa com alguns pertences íntimos, dentre eles alguns bilhetes apaixonados que pertenceriam a Tânia e sua relação com Gregório. Quando um amigo de Gregório resolve vingá-lo atazanando a vida já perturbada de Manuel com cartas que evocam estes bilhetes o suspense da trama alcança o seu ápice, posto que colocará Manuel na trilha de sua própria loucura (traduzida, em alguns momentos, pela busca desenfreada por experiências sexuais, todas elas fadadas ao fracasso). Ao final Manuel se vê cobrado e pagando por um crime real, enquanto tenta se desvencilhar da culpa moral que lhe é imputada (e que assume, de certa maneira) através da afirmação de seu amor-paixão por Tânia (com a expectativa, claro, de ser correspondido). Mas justamente, Tânia é um poço de ambigüidades...

Ao longo do filme transparece a intenção de discutir o plano ético das relações (as escolhas e suas conseqüências sempre marcadas pelo inesperado, as paixões em seus excessos e limites, o ponto elas deixam de conduzir à expansão dos corpos e subjetividades, a construção-desconstrução dos laços e os valores que os sustentam) e junto com isso surge a possibilidade de refletir sobre o trinômio sexo-loucura-paixão (com a inevitável presença da morte) de uma perspectiva mais aguçada. Não que encontremos algo radicalmente novo. Ao contrário, nas várias cenas em que o casal protagonista comparece o filme faz jus ao famigerado estilo drama-mexicano. Mas o tratamento dado ao entrelaçamento das estórias sugere um deslocamento quanto aos valores que são apregoados na atualidade.

O sexo, por exemplo, longe se constituir numa performance brilhante e adequada aos emblemas de potência aos quais somos chamados implica – para além dos prazeres – um encontro com uma alteridade cravada no corpo que causa estranheza, especialmente pela insistência com que comparece em seu excesso, esgar aflito que espreita sem descanso. Do mesmo modo, a loucura e a paixão – que tecem com o sexo a rede demoníaca em que os personagens de (des) encontram – são positividades abertas, e não apenas sintomas patológicos desde que pensemos que não se reduzem ao suicídio e aos atos violentos (brutais, até) que são apresentados por todos os envolvidos na estória, mas produzem novos modos de existir e criar laços (ver as cenas nas quais Manuel e Tânia discutem as reais possibilidades de se relacionarem, assumindo sua paixão e experimentando com coragem os dilemas que conhecemos, e também a cena na qual dentro do motel Gregório se afasta de Tânia numa tentativa desesperada de protegê-la do descontrole que o possui). A última cena do filme traz na pergunta que Manuel endereça a Tânia a questão que perpassa as vivências de ambos e, arrisco dizer, uma crucial questão para nós todos: “Você me ama?”.

No mais, o roteiro é bem feito, (repetindo em alguns aspectos a fórmula bem sucedida de outros filmes), colaborando para aumentar a clima de suspense, enquanto vai passo a passo construindo o sentido das situações (com o recurso do flash-back, sem exageros). As interpretações seguem o fluxo proposto, destacando além do casal protagonista o trabalho de Armando Hernandez, que compõe com destreza cada passo de Gregório em direção ao enlouquecimento. E é exatamente este enlouquecimento que a direção visa mostrar acompanhando sem piedade e falsos moralismos o destino insólito dos personagens (neste ponto é auxiliada por uma ótima fotografia, carregada de tons lúgubres).

Para finalizar, “O Búfalo Da Noite” é diversão com ritmo de thriller e enfoque mais reflexivo, para falar das dores e gozos que constituem as paixões e amores. Com aquele inconfundível estilo mexicano, claro.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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