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"O CHEIRO DO RALO" de Paula Braum

O Cheiro do Ralo

Foto: divulgação

Lourenço (Selton Mello) procura a garçonete (Paula Braun) por cujo traseiro é obceca

Filme

"O CHEIRO DO RALO" de Paula Braum

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Num momento onde se produzem diversos trabalhos (pesquisas acadêmicas, ensaios jornalísticos, debates públicos) a respeito dos conflitos e impasses que caracterizam os encontros forjados no seio da chamada sociedade de consumo pós-moderna, o filme “O cheiro do ralo”, de Heitor Dhalia, traz um interessante ponto de vista sobre o tema. Partindo de uma estória de Lourenço Mutareli apresenta uma galeria de personagens insólitos e empobrecidos (não apenas financeiramente), transitando por um campo de relações inóspito e cruel, em especial um, Lourenço (Selton Mello, excepcional) que organiza seus encontros em torno de uma atividade profissional que consiste em comprar objetos de todo o tipo, oferecidos por desesperados e pedintes “vendedores”: objetos de valor meramente afetivo muitos deles, mas que são colocados numa barganha onde se trata de submetê-los (e se submeter) à apreciação de um negociante que se compraz, na maioria das vezes, em tripudiar dos pedidos e ofertas, com todos os efeitos perversos e violentos que daí se fazem.

No limite dessa trilha, o avesso desse quadro: o encontro de Lourenço com dois objetos que o fascinam e submetem: um olho de vidro que lhe é oferecido por um preço que (este sim!) é obrigado a aceitar e as nádegas exuberantes de uma balconista de lanchonete (Paula Braum). A paixão de Lourenço pelo olho e pela bunda – que, aliás, Lourenço sonha em comprar, como todo objeto que possui – mostra a (outra) face melancólica do “poderoso” negociante: incapaz de estabelecer relações que reconheçam o outro na sua integridade e diferença (ver a maneira como Lourenço desfaz o noivado às vésperas do casamento, bem como sua diversão masturbatória diante da TV em suas solitárias noites) e impossibilitado de criar laços que não sejam pautados na compra-venda de bugigangas que se tornam rapidamente descartáveis, resta ao personagem se referenciar (nomeando-se) no ralo, ou melhor, no cheiro do ralo entupido que emana do seu banheiro. A bem dizer, este é um ponto crucial da trama: ouvindo de um dos seus “clientes” uma frase que termina por servir de nomeação sobre seu próprio modo de existir, Lourenço se vê compelido cada vez mais a buscar uma proximidade com o ralo e seu cheiro, a ponto de não mais se distinguir da podridão a que se refere (com uma insistência que cabe notar) sobre o ralo – as cenas nas quais Lourenço chama a atenção dos clientes para o cheiro do ralo, antes mesmo que estes façam a ele qualquer menção são deliciosas.

O tom de comédia que acompanha todo o filme – há momentos hilariantes, ainda que o riso que experimentemos seja muitas vezes amargo – serve para estabelecer a leitura que nos é proposta. Num estado de coisas onde muitas vezes nos é imposta a condição de meros sobreviventes, objetos descartáveis e desenhados como parcialidades de consumo sem qualquer poder de criação e transformação, impelidos a gozar com o desrespeito aos direitos mais fundamentais daqueles com quem convivemos (a cena na qual o dono da lanchonete se refere ao modo como trata os direitos trabalhistas básicos de seus funcionários, com a anuência destes, é claro, é sensacional), a podridão do ralo entupido mais do que circunstancia, torna-se destino, fazendo de todos meras caricaturas risíveis. Assim, a violência se inscreve no quotidiano, não sendo necessária qualquer situação espetacular para denunciá-la.

Além disso, ao nos oferecer seus personagens como objetos de riso e, até, de uma certa compaixão, os autores contornam o risco de uma mensagem moralista e/ou com pretensões a esgotar a totalidade das questões. Os personagens são apresentados em suas ambigüidades e paradoxos sem que sejam condenados de forma absoluta, posto que encontram sua grandeza justamente na maneira francamente rude e cínica com que vivem suas vidas. Não parece haver o tradicional maniqueísmo bandido-mocinho nesta estória, mas uma atmosfera de bestialidade que se insinua entre todas as relações, solapando de forma inapelável o entusiasmo e a alegria dos encontros. A trajetória da balconista – cujo nome, Lourenço não consegue sequer ouvir adequadamente – é, por isso, digna de se notar: primando a princípio por uma certa ingenuidade, temperada pela exuberância de suas formas corporais e erogeneidade, até ao momento em que, rendida ao cinismo e praticamente prostituída se “entrega” às fantasias de Lourenço (numa cena tão patética quanto dramática), a personagem (muito bem trabalhada por Paula Braum, diga-se) parece recusar, ao final de tudo, a dignidade que buscou sustentar num certo momento, quando se afastou por não aceitar a expectativa de Lourenço em relação ao seu corpo. Termina trabalhando como (sua) secretária, satisfeita em vingar-se de seu “agressor” com as mesmas armas por ele utilizadas.

“O cheiro do ralo” tem um andamento que não deixa o espectador respirar, fruto de um roteiro inteligente e uma câmera ágil, disposta de maneira a deflagrar a sordidez das situações, com ângulos inesperados e/ou provocativos, inclusive quando se trata de retratar o impossível “objeto de desejo” de Lourenço (a bela bunda, magnificamente fotografada desde a perspectiva do olhar de Lourenço, o que nos faz, por um efeito de equívoco nos identificar por instantes com sua brutalidade). Assim, transitando entre a crítica aos valores contemporâneos e o bom humor criativo que escuta com leveza as misérias humanas, este trabalho de Heitor Dhalia fala de um cinema que se afirma pela agudeza e precisão de seu aguilhão, convocando a um exercício permanente de reflexão e transformação nas (das) nossas relações.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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