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FILME

"O Passado" de Hector Babenco

O Passado de Hector Babenco

Foto: divulgação

Desconstruindo as idealizações sobre as relações amorosas

Filme

O Passado

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Na primeira cena de “El passado” (título original) uma grande amiga do casal Rimini e Sofia enaltece a beleza de ambos e de seu casamento. Tudo é feito como uma espécie de homenagem ao casamento que já dura 12 anos, com fotos, lembranças e carinhosas reminiscências. Na cena seguinte, Rimini e Sofia procuram a amiga para dizer que seu casamento terminou: estão se separando e se sentem compelidos a revelar isso, especialmente a ela. Assim começa o novo trabalho de Hector Babenco, apresentando de chofre o que vai se mostrar como seu principal protagonista: a separação, ou ainda, o caminho de reconstrução da vida cotidiana (inclusive sexual) com todas as afetações que acompanham o trilhamento dos novos “territórios” que cada um cônjuges necessariamente percorrerá. Rimini e Sofia cruzarão seus caminhos e construirão experiências que não se situam exatamente no âmbito da normalidade e do bom senso esperados. Babenco parece querer traçar a história da relação a partir dos restos que permanecem clamando alguma resolução, e é justamente aí que reside a força do filme. Pois será na crueza e no dilaceramento de cada um separadamente e de ambos, com seus reencontros que muitas vezes chegam às raias do patético, que algum sentido poderá se fazer. Qual?

“El Passado” fala de maneira paradoxal do presente e do futuro. Mas não pretende uma linearidade cronológica. Os tempos construídos por Rimini e Sofia decorrem de uma espécie de embaralhamento das oposições admitidas em torno dos motivos da separação. Se ele se põe a exercitar seu erotismo se permitindo os encontros apaixonados e encarnando o “latin lover” que em algum momento se deixa capturar numa (outra) relação estável que lhe concede dentre outras coisas um filho, vive um sintoma que é uma metáfora sugestiva de sua “escolha”: perde a memória das línguas que sempre dominou na condição de tradutor (sua profissão), sem que qualquer explicação médica seja apresentada. Impossibilitado de traduzir (as cenas em que o personagem é tomado por “um branco” no momento de cumprir com o que dele se espera como profissional capaz de realizar com competência seu trabalho são desconcertantes e angustiantes) e impotente numa de suas maiores afirmações restará a Rimini cuidar do filho, deixando que sua (nova) esposa (também tradutora) seja a provedora da casa. É pouco?

Já Sofia chora sua dor. E de maneira despudorada. Insiste que o ex-marido retorne para ao menos resolver o destino dos antigos retratos (mais uma referência ao tempo) já pertencentes ao famigerado álbum familiar (ela não quer esquecer). Mas, ao lado disso não perde nenhuma oportunidade de afirmar alucinadamente sua importância para o destino de ambos, impondo sempre que possível sua presença em todos os espaços freqüentados por ele. Não faltam nem mesmo “cantadas” cruas para o sexo e uma atitude enlouquecida no tocante ao filho de Rimini que causará um grave desconcerto na vida do “amado”. Que tal?

O fio da meada do enredo apresenta pessoas que são muito mais títeres das paixões que carregam do que sujeitos de uma racionalidade que elegeria o amor como mote salvador das relações. A trajetória que desenham traz a vida erótica como excesso inescapável e os destinos que se abrem nos vários encontros traz a morte como presença necessária na afirmação de si e reconhecimento do outro. Ciúmes insanos, desejos sexuais ditos e vividos com crueldade, ambivalências encaradas até com uma certa naturalidade, vidas e corpos à deriva da docilidade pregada na atualidade, não se vê salvação corretiva para as tensões humanas. Ao contrário, os personagens vivem intensamente as delícias e dores de serem o que são, e buscam criar as regiões de maior amparo para seus sofrimentos sem a pretensão de alcançarem equilíbrio e normalidades. Aí está sua grandeza.

Assim, temos uma fotografia belíssima a desnudar essas pessoas comuns que habitam as ruas de Buenos Aires e São Paulo, cenas de sexo que primam pela pungência, interpretações bem estruturadas e um ritmo que surpreende ao acompanhar de maneira atenta às surpresas da trajetória de cada personagem. Os diálogos são ferozes e indicam um “estilo Babenco”, sobretudo quando se trata de caracterizar a violência que as paixões induzem. De quebra a aparição de Paulo Autran, a última na verdade, com um personagem também experimenta se “perder” em sua fala e gestos, sem que isso implique qualquer negatividade.

Em tempos onde se prega a performance dócil dos corpos e o controle das paixões Babenco pede licença para, sem maiores cerimônias, expor o inexorável vazio que acompanha o amor e junto com isso revelar o quanto se tornam pobres as vidas que pretendem negar este vazio idealizando e normalizando as relações.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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