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PARIS, je táime

Paris, je táime

Foto: divulgação

Um passeio pelas múltiplas afetividades que habitam as luzes

Filme

PARIS, je táime

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• É sabido que “Paris, je táime” resulta de um esforço de vários cineastas no sentido de oferecer, a partir de uma leitura singular, uma espécie de cartografia dos encontros e experiências vividos no cotidiano da cidade das luzes. É sabido também que temos a participação de importantes autores, como Walter Salles , Ethan Cohen (dentre outros) e que cada um desses autores dispôs de poucos minutos para apresentar sua proposta. Além disso, somos informados que atores consagrados – como Juliet Binoche, Gena Rowlands, Bob Hoskins, por exemplo – se “mesclam” a outros não menos capazes de gerações mais recentes – Nathalie Portman, dentre outros - o que por si só suscita curiosidade. Mas deve-se dizer que o produto final supera muito as (boas) expectativas. “Paris” é adorável (ou seria melhor dizer adoráveis?)

Durante o tempo em que somos apresentados aos 16 quadros que compõem o passeio por uma Paris muitas vezes desconcertante, habitada por afetos e ações que inventam, a cada instante, um cidade diferente (deserta, lúgubre, violenta, cinica, melancólica, apaixonada, cindida, acolhedora, etc), somos capturados por uma atmosfera de encantamento não apenas pela cidade (o que só faria, aliás, reforçar um lugar comum) mas pelas estórias e os destinos, em sua maior parte somente sugeridos, reservados para cada um de seus protagonistas.

Há o casal de mímicos e artistas que encenam para ( e com) o filho os passos e imagens da constituição dos seus laços (um dos mais belos), o encontro bizarro entre um turista e um violento casal no metrô, o retrato do desespero materno em busca de um impossível reencontro, os amores e erotismos da juventude sempre marcados pela ambivalência e o mal entendido dos olhares, das falas, os amores e erotismos mais maduros, que não se comprazem com o óbvio e num “jogo de cena” brincam com as cenas que protagonizam, seja porque se ancoram em enredos que apenas interpretam (caso dos dois atores que desenvolvem um encontro erótico como parte de sua leitura de uma peça teatral), seja porque se ancoram nas histórias que verdadeiramente realizaram, permitindo-se o humor mais rascante para rever suas trajetórias e dizer seus futuros (caso do delicioso diálogo de dois avós – na cena e no cinema). Há (essa a contribuição de Walter Salles) a dureza da vida desnudada do acolhimento essencial do outro, e que só é efetivamente recebida em seu momento terminal, ainda que este momento reúna em si todo o ardor da hospitalidade (literal e metaforicamente), e também a solidão transformada em vivência positiva e criativa por conta da disponibilidade de estar e “respirar” as pessoas que passam. Há muitos outros quadros e convites a exercer um “turismo” pelas vidas que se apresentam. Tudo isso tem o efeito de produzir uma Paris ao mesmo tempo conhecida e desconhecida: habitada por mil luzes e experiências, são estas últimas as luzes que se fazem mais fortes: multiplicidades de afetos, multiplicidades de corpos ,multiplicidades de dores, multiplicidades de desejos e erotismos, multiplicidade de histórias e devires.

A trajetória que nos é proposta merece reconhecimento, quanto mais não seja pelo fato de oferecer uma linguagem escapa em muito do convencional, brindando a todos com a poesia nossa de cada dia, sem a qual não podemos viver, com ou sem as luzes parisienses.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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