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FILMES

“People – Histórias de Nova York”

People – Histórias de Nova York

Foto: divulgação

“People – Histórias de Nova York”

Filme

"Personal Che" de Douglas Duarte e Adriana Marino”

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Falar sobre os problemas vividos pelos habitantes de uma cidade cosmopolita como Nova York não traz em si nenhuma novidade. O cinema já se devotou a esse empreendimento muitas vezes. Woddy Allen, Francis Coppola e Martín Scorscese (para falar apenas dos “clássicos” americanos) já ofereceram vigorosos e brilhantes criações. E mesmo após o 11 de Setembro de 2001 outras produções compareceram. Mas o filme de Danny Leiner tem a proposta de efetuar uma delimitação curiosa: percorrer as vidas de tipos urbanos pouco convencionais, digamos, caracterizando seus conflitos cotidianos e fracassos/esforços para reconstruírem laços mais sólidos. Com uma boa dose de humor.

As cinco estórias que compõem a trama não primam exatamente pela originalidade, mas evocam a estranheza necessária para desmontar as representações heróicas que arriscam produzir sentidos redentores. Sem glamour e sem ordenações mais tranqüilizadoras os personagens transitam por cenários um tanto claustrofóbicos, enquanto experimentam suas alegrias, tristezas, ódios, esperanças e perplexidades com intensidade e até uma certa ironia nos seus modos de enfrentar as adversidades.

Assim, um casal que “toca” a vida de forma burocrática (inclusive sexualmente) se depara com um “filho problema” que traduz em seu comportamento violento e compulsivo (por comida) o desconcerto do casal e a ausência de amparo para seus terrores; um par paciente-terapeuta que se desencontra de maneira sistemática, mas que constrói neste desencontro um modo de falar das impossibilidades causadas pela dor e o ódio; uma “promoteur” que se devota a produzir bolos para festas diversas, buscando se referenciar numa já bem situada (sucedida) profissional desta atividade; uma dupla de seguranças de um importante político que discutem (e como!) sobre as maneiras de encarar seu trabalho e as relações que se constituem a partir dos encontros com os muitos tipos que habitam as ruas e lugares, eles mesmos estrangeiros e construindo suas trajetórias à margem dos padrões culturais; finalmente, idosos que vivem os impasses do envelhecimento, com os encontros/desencontros característicos, nos quais a perspectiva de novas e salutares afetações passa também pela criação de novos espaços de circulação e fala. O desenlace das estórias vai se fazendo com um toque de acaso e todos os personagens alcançam alguma resolução em suas vidas a partir das trocas solidárias que conseguem estabelecer.

“People” se torna mais cativante quando extrai risos e convoca dos espectadores uma certa condescendência com as bizarrices das situações. Para isso conta com uma fotografia que destaca a especificidade de cada vivência (especialmente a do menino cravado pelo terror-violência e a da relação terapeuta—paciente) e interpretações que sem alcançar maiores brilhantismos seguram o ritmo e os diálogos com competência. Soa um tanto esquemática e psicologizante a “resolução” que o casal pai-mãe-que-sofrem com filho esquisito desenvolvem, mas no geral o trabalho de Danny Leiner é um bom exercício e traz, sem negar as tradicionais fórmulas de entretenimento, um interessante espaço para reflexão.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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