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"Personal Che" de Douglas Duarte e Adriana Marino”

Personal Che de Douglas Duarte e Adriana Marino.

Foto: divulgação

Uma leitura sobre o poder do mito para além dos fatos

Filme

"Personal Che" de Douglas Duarte e Adriana Marino”

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Uma conhecida música do “Clube de Esquina” cantada por Elis Regina e Milton Nascimento entoava algo como: ”... o que foi feito amigo, de tudo o que agente sonhou, o que foi feito da vida, o que foi feito do amor, quisera encontrar... aquele verso menino que escrevi há tantos anos atrás...”. Afora o tom nostálgico, notamos o importante reconhecimento de uma impossibilidade: reaver algo realizado no passado sem considerar as mudanças que obrigatoriamente se fizeram, inclusive a partir destas realizações. De tal maneira que o ‘verso menino’ só é encontrado ao preço de uma reconstrução, necessariamente transformado, contendo outros versos e meninos...

O trabalho de Douglas Duarte e Adriana Marino parece tomar partido do lado positivo dessa leitura e percorre vários aspectos da história e do destino de Ernesto “Che” Guevara nas mentes e corações que o “constroem” como algo de valor para suas vidas. Do povo habitante das colinas bolivianas até os manifestantes de uma passeata nazista, passando por militantes chineses e, digamos assim, fãs que o cultuam no esquema de massificação contemporâneo, somos convidados a conhecer a cada vez um “Che” diferente. Aqui se busca menos a “verdadeira” verdade sobre o homem e guerrilheiro com o objetivo de encontrar os modos pelos quais sua imagem ajuda a produzir os discursos, afetos, crenças, enfim, modos de existência organizadores da vida e dos laços sócio-culturais que sustentam as pessoas. E como não há a pretensão de tomar os fatos históricos como (única) referência e medida, abre para o pensamento sobre a função do mito na organização das subjetividades, sem esquecer o brutal impacto dos instrumentos de apreensão e invenção que comparecem na atualidade.

Assim, dos muitos depoimentos – alguns dos quais super emocionantes pela pungência e simplicidade – surge também uma convocação para uma reflexão mais teórica sobre os tipos de apropriação de “Che”, suas determinações e conseqüências para a vida das pessoas e a cultura em geral. Nada que seja exagerado e/ou carregado na erudição. As falas são precisas e acompanham com cuidado as questões principais, indicando e provocando, mais do que explicando e fechando possibilidades no debate assim instaurado. Do lado dos realizadores, fica a impressão de que se engajaram efetivamente neste projeto, respeitando as crenças e desenvolvendo um projeto próximo de uma “observação participante”: respeitosa com as diferenças e sensível na captação dos afetos que ajudam a caracterizar valores e verdades que não se esgotam no conhecimento da história (na verdade, alguns dispensam mesmo este conhecimento).

Com isto podemos aprender que os mitos contêm saberes/verdades que não são apreensíveis e reguláveis pela objetividade dos fatos e que esses saberes e verdades não são menos essenciais para a luta cotidiana eleitas pelos indivíduos como valor.

Do ponto de vista cinematográfico destaca-se a maneira como os diretores e roteiristas contextualizam os diversos atos, mostrando as linguagens que se afirmam, assim como os “versos” e “canções” encarnados pelos ‘herdeiros “: cada um merece um tratamento cuidadoso, tem a sua fala positivada. Se há a isenção necessária para conduzir o filme com a firmeza desejada, em nenhum momento há a ilusão da neutralidade. Trata-se de um estudo crítico e de uma maneira de desconstruir” Che “, no sentido de demonstrar a falácia de um pensamento que se proporia mais verdadeiro porque mais adequado à realidade dos fatos historicamente comprovados. Ao lado dela existem acontecimentos singulares, invenções que atendem a interesses e táticas variados”, corporeidades que não se conformam ao pré-estabelecido (algumas, à beira da bizarrice).

“Personal Che” merece ser visto e revisto, quanto mais não seja por ser um interessante exercício de documentar sem esquecer as importantes (fundamentais) proximidades e atravessamentos entre a realidade e a ficção.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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