Filmes: comentários

FILME

“Santiago” de João Moreira Salles

Santiago

Foto: divulgação

Emoção e lirismo de um documento sobre a construção da própria história

Filme

“Santiago” de João Moreira Salles

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• O documentário “Santiago” de João Moreira Salles nos coloca de imediato na trilha das reminiscências do próprio diretor, quando este nos adverte que se trata de tornar presentes momentos importantes da sua história e da história de sua família. Só isto já dá a dimensão de emotividade que atravessa a narrativa, realizada num tom que mescla sobriedade, respeito e extremo carinho com as experiências/memórias do “protagonista”. Ao trazer para o centro das atenções as estórias de vida de Santiago – mordomo da família Salles por mais de vinte anos – João Salles experimenta menos um resgate do passado (fórmula com a qual nos acostumamos a significar as rememorações), mas refazer os muitos aspectos que compõem sua trajetória, como co-participante de uma parte dos acontecimentos e como autor do documentário.

Este modo de apresentar um percurso de vida que prima pela maestria e sensibilidade permite grande liberdade para com a construção das imagens, e, também, um jeito onírico de lidar com os fatos (inclusive os mais comezinhos), materializando proximidades que não se esgotam na descrição dos afetos (sempre muito intensos) que permeiam o encontro de Santiago com as situações de maior impacto de sua história. Ao contrário, a narrativa acompanha e testemunha a grande inventividade que emerge nas memórias que Santiago desenvolve, seja para dizer de sua fidelidade ao trabalho que exerceu de maneira cuidadosa – na preparação delicada das festas, sempre com muito glamour, no carinho devotado ao modo de vida dos seus patrões, enfim, na forma criativa de habitar a casa (o momento em que foi surpreendido tocando piano com trajes de gala, bem como a justificativa que encontra para isso é exemplar e genial) -, seja para referir os acontecimentos que constituíram suas vivências infantis, na constituição de sua linguagem primeira, nas estórias familiares, musicalidade e escritura reunidas e encarnadas ao longo da vida.

Assim, os vários momentos em que Santiago faz e refaz os movimentos e dizeres que formarão a cena narrada (mostrados como num making off) são também momentos em que o filme se faz e se encontra com restos que se juntam sem a pretensão de formar uma totalidade. Cada fala de Santiago ou do narrador remete a dimensões diferenciadas de histórias que são marcadamente diferentes (o mordomo e o patrão) com destinos que se cruzam como que numa centelha, que o filme torna possível apenas para melhor caracterizar a riqueza de uma delas, a de Santiago. Dele é que emanam os belos textos sobre nobres figuras desconhecidas, a sensualidade das mãos dançarinas (evocando Fred Astaire e Cid Charisse), o olhar respeitoso e sutil sobre as obras de arte, os múltiplos ritmos de seus gestos, pequenas “obras” de uma vida, ela mesmo encontro radical com a perspectiva da arte.

Santiago” demonstra mais uma vez que um documento  cinematográfico não precisa ser a burocrática resenha de informações e descrições objetivas para ser  fidedigno aos autores e “atores”, com suas vidas peculiares. Nem é preciso conceber o distanciamento necessário no tratamento dos temas como ausência de afeto e engajamento. O que soaria estranhamente paradoxal numa visão mais binária revela-se aqui o melhor que o filme pode ofertar ao espectador: a possibilidade de se afetar em direção aos seus próprios restos, permitindo-se atravessar-se com os restos da estórias que presencia, refazendo como que numa outra centelha singular, suas próprias lembranças.

Simplesmente imperdível.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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