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FILME

"TODOS CONTRA ZUCKER" de Dani Levy

TODOS CONTRA ZUCKER

Foto: divulgação

Um retrato sobre a solidão e abandono em história narrada com crueza

Filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

"TODOS CONTRA ZUCKER" de Dani Levy

• Mexer com temas relacionados a dores e feridas nem sempre bem cicatrizadas é empreendimento que comporta um certo risco. Mais ainda se a intenção é fazer comédia. Não há aí nenhuma discordância (ao contrário!), mas o reconhecimento de que é necessário dispor dos ingredientes com todo cuidado, além de encontrar um tempero que seja exato em sua função de realçar o gosto do prato e não alterá-lo, com a licença de utilização desta trivial metáfora culinária. O fato é que Dani Levy consegue expor as mazelas políticas, afetivas e históricas que atravessam uma família judia, numa trama que coloca lado a lado ortodoxia religiosa e paixão sexual, dramas relacionados com o muro de Berlim (e sua queda) e luxurias de jogo e sexo, desencontros no casamento e solidariedade por interesses financeiros, ódios/rancores entre irmãos de sangue e rituais estruturantes do pertencimento étnico. Todas essas experiências fazem parte do cotidiano da família Zuckermann e, é claro, da Alemanha pós-muro, com o passado ainda vivo e a discussão sobre os destinos daqueles que ficaram no lado socialista clamando por outras e novas revisões.

Tudo isso daria um grande melodrama, mas o tratamento dado pelo diretor prima pela desidealização das crenças e valores que se impõem com rigidez, positivando as soluções que os indivíduos encontram no seu cotidiano, não importando tanto sua coerência e eficácia. Daí o tom leve e descontraído que destaca o patético das diversas situações, sem desautorizar qualquer um dos personagens com seus conflitos e contradições.

Então, quando a mãe de Jakob e Samuel Zuckermann morre, deixando uma herança que poderá ser dividida entre os irmãos e suas respectivas famílias caso determinados procedimentos venham a ser observados – dentre eles a reconciliação dos irmãos há muito afastados e vivendo em “lados” diferentes de Berlim, além dos rituais próprios da comunidade judaica -, instaura-se a uma espécie de desordem: o encontro dos irmãos e suas respectivas famílias (sem esquecer o rabino, amigo da falecida, que assume a condução do processo) torna-se uma sucessão de enganos, mal-entendidos e emergências afetivas inesperadas. Tudo isso sob os auspícios do respeito à memória da (poderosa) mãe judia, e, principalmente, da uma herança que todos acreditam ser polpuda. Este o cenário.

O filme segue mais de perto as peripécias de Jakob Zucker, ex-jornalista/locutor e atual (inveterado) jogador de sinuca, competente na atividade, mas menos feliz nos arranjos econômico/financeiros. Está muito endividado, tanto que não consegue pagar as profissionais que trabalham na casa de massagem (e demais divertimentos) que mantém, está às portas da prisão por conta de uma alta dívida que não conseguiu pagar e recebeu “cartão vermelho” da mulher.

Enquanto procura formas de se safar desse caos – encontrando um torneio internacional de sinuca que garante excelente premiação – Zucker vai levando a vida, contando com a ajuda dos filhos (Jana, que mantém uma relação com um transsexual e Thomas, figura de bela estampa, mas com enorme timidez e sofrendo de gagueira). Ambos são bem sucedidos profissionalmente, mas não mais suportam as confusões do pai. Com a morte da mãe e a vinda do irmão, sua mulher vislumbra uma saída, via herança. A solução é agüentar o irmão ortodoxo (as cenas em que Marlene Zucker busca contato com o modo de existência judaico em alguns manuais, para “encenar” o que julga ser importante para convencer a todos da adesão do (ex-marido) aos preceitos religiosos são ótimas) com seus filhos, o rapaz rigorosamente religioso e a moça, bem esta vai protagonizar alguns dos momentos mais engraçados do filme, com seu estilo despudorado, para dizer o mínimo. Mas o problema é que Jakob não se mostra disponível (a propósito, ele é ateu) e, além disso, o torneio de sinuca tem data para começar no dia do enterro de sua mãe e prosseguirá no decorrer da semana em que terão de ser realizadas as cerimônias que constam do “pacote” exigido pela mãe para liberar a herança. Angustiante? Nem tanto. As saídas e jogadas – em vários sentidos- encontradas por Jakob são criativas, envolvem a complacência das pessoas mais próximas e terminam por conduzi-lo a um lugar mais confortável. Não sem alguns sustos e descompensações cardíacas.

No prolongamento das tramas que vão se constituindo nas relações familiares, destaca-se um humor, por vezes cínico, por vezes cáustico, mas sempre inteligente e privilegiando o retrato das enormes diferenças que se escondem/revelam no seio de uma família tão peculiar, provocando desconforto, claro, mas apontando para a necessidade de recebê-las respeitosamente.

É esse respeito que marca com clareza a opção política e estética de Levy. Há muitas cenas hilariantes que descrevem a perplexidade de todos por relação ao encaminhamento dos pactos e aos estranhos sumiços de Jakob dos rituais e encontros familiares. Do mesmo modo, a relação entre os irmãos e os primos é vista sob a ótica da caricatura. O próprio Jakob é caracterizado como um anti-herói, ou como denominamos na gíria, uma “figuraça” que não consegue sequer dizer corretamente o nome da neta. Mas em nenhum momento há qualquer intenção de diminuir a força das experiências e dos personagens. “Todos contra Zucker” possui um elenco muito bom, destacando-se Hannelare Elsner (Marlene Zucker) como a mulher que faz das tripas coração para recuperar o marido através da proximidade com a família e perspectiva da herança, Steffen Groth (Thomas Zucker) como o filho algo envergonhado com o pai e sobretudo com uma enorme timidez sexual, a bela Elena Uhlig (Lilly Zuckermann) que interpreta a filha ousada da família ortodoxa, altamente sexualizada, com caras e bocas muito sugestivas em todas as situações, especialmente as que envolvem proximidade com seu digamos pouco experiente primo. Henry Hübchen também está ótimo, fazendo um Jakob Zucker sempre muito “safo”, capaz das maiores enrolações, mas em geral se saindo bem delas. O roteiro é ágil e o filme não fica cansativo, mesmo nos momentos em que algumas seqüências parecem repetir-se.

No mais é dizer que esta comédia é altamente recomendável. Ela nos diz, através do riso farto que provoca, que uma das sabedorias da vida está em poder criar um campo de convivência com aqueles que são diferentes, estranhos e até alheios aos nossos ideais mais arraigados. Ela poderá ter efeitos transformadores, se puder acolher a estranheza dando-lhe um sentido positivo.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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