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"UM BEIJO ROUBADO" de Wong Kar Wai

"UM BEIJO ROUBADO" de Wong Kar Wai

Foto: divulgação

Despojamento e ousadia na leitura dos encontros forjados na solidão

Filme

"UM BEIJO ROUBADO" de Wong Kar Wai

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• No início de “My blueberry nights” (título original) ficamos um tanto siderados pela suavidade implícita no encontro entre Elizabeth e Jeremy, e assim, convocados a assumir o papel voyeurs (e qual cinéfilo recusa isto?) diante da maneira com que ambos se recebem, entre histórias íntimas de si e dos outros e generosos pedaços de uma deliciosa torta. Toda essa doçura sugere algo mais próximo dos velhos romantismos explorados à exaustão por hollywood, ainda que não de todo desinteressante dada a bela estampa dos protagonistas. Mas wong Kar Wai não se demora neste expediente e antes que o ritmo da trama - pontuada por diálogos inteligentes – se escoe no piegas e previsível já nos encontramos numa espécie de “road movie”. Assim, Elizabeth, destinando-se um caminho de distanciamento de suas dores e desilusões, põe-se a buscar novas experiências e lugares, mas com o cuidado de relatar a sua “estrada” para Jeremy, já agora alçado à condição de um partner cuja única função é receber seus cartões e acompanhar longinquamente sua viagem.

O desenrolar da trama demonstra que a intenção maior é apresentar o movimento das pessoas como algo que não se encaixa nos estereótipos do bem estar e da coerência no regime dos afetos (se é que existe tal coerência). Através de uma admirável alternância de cores, velocidades, humores e falas o diretor propõe que também na cultura da performance da pós-modernidade, há que se ter um posicionamento que inclua a diferença em si e no outro como positiva chance de aprendizagem e transformação. Jeremy, dono do bar onde ambos se conheceram e após ter literalmente roubado um beijo de Elizabeth (uma cena magnífica em sua delicadeza e ousadia de enquadramento), toca sua vida fazendo das leituras das cartas de Lizzie um motor de reflexão, enquanto busca saber onde ela se encontra, sem conseguir. Já Elizabeth encarna sua busca conhecendo pessoas, sempre como uma garçonete (bar-woman ao estilo Jeremy).

Seria o balcão de um bar um lugar talhado para melhor conhecer as peculiaridades, bizarrices, sofrimentos e alheamentos de alguns humanos? A julgar pela experiência de Elizabeth o bar é laboratório de múltiplas experiências de aproximação com afetos de todo tipo, encarnados em tipos que estão longe do equilíbrio e da norma. Não que sejam por isso menos comuns e até desprezíveis em suas torpezas. Mas se é possível dirigir para eles um olhar acolhedor, eles podem se revelar belos e até divertidos em suas maluquices.

Assim é com a perua-sensual-fatal Sue Lynne falada e retratada a princípio como a bandida da triste história de amor do policial-alcoólatra Arnie, mas que aos poucos se mostra dolorida e tão sem rumo quanto seu (ex) marido e qualquer um dos seus namorados (as tomadas de cena que caracterizam no início o estilo mulher fatal e as tomadas que mostram sua outra face diante dos fatos e da morte de Arnie são marcadas por um genial contraste de cores, olhares e tempos). O próprio Arnie, figura semigrotesca em seu discurso adoecido e hipócrita em relação ao alcoolismo, cumpre de maneira adequada um papel social e dirige a Lizzie um laço interessante. Porque demandante de atenção e sincero no modo de retribuir o que recebe. Ao final a morte o redime, ainda que resultante de um ato melancólico.

Do mesmo modo a inveterada jogadora de pôquer (estamos agora em Las Vegas), com amplo domínio das cartas e dos adversários, mas amedrontada diante dos homens e experimentando desconcerto e perplexidade com as atitudes do pai, ele mesmo responsável pela sua entrada no universo do jogo. Com essa jovem mulher, Elizabeth vai viver e realizar bons sonhos e aventuras.

Do outro lado da “linha, Jeremy mantém sua esperança e busca renovar seus conceitos e expectativas. Quando acontece o reencontro ambos já sabem que se escolheram e é isto que permite a Lizzie dizer que necessitou forjar um tempo em sua vida antes de voltar para aquele lugar. Foi preciso habitar outros lugares para que pudesse enfim habitar o que Jeremy podia oferecer.

“Um beijo roubado” conta com excelentes participações de todo o elenco, com destaque para Jude Law (Jeremy), expressivo em sua compaixão e carinho, Rachel Weisz (Sue Lynne) que compõe uma autêntica desarvorada sem apelações dramáticas, e principalmente Natalie Portman , precisa ao fazer uma solitária mulher, patética em seu exagerado glamour e ao mesmo tempo assustada diante dos afetos e sofrimentos presentes na vida. Um outro ponto de destaque é a trilha sonora que conta com contribuições de Ry Cooder, Cat Power e também Norah Jones, com sua bela e sensual voz – a trilha original fica por conta de Shigeru Umebayashi, cuidadosa e instigante. Todas as músicas pontuam as cenas com muita elegância, exceção feita às cenas dos beijos – o primeiro roubado, o segundo nem tanto – nas quais impera o silêncio, mais uma tirada instigante desse ótimo filme.

Então, vale acompanhar a viagem que Wong Kar Wai nos indica (ele mesmo assina junto com Lawrence Block um roteiro que é um dos pontos altos do filme). Ela traz muito mais do que o título sugere (no original). Ela faz uma passagem pelas múltiplas possibilidades que os encontros e as escolhas podem proporcionar. Independente do “final feliz” e da gula que nos desperta a visão daquela torta degustada com tanto prazer...

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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