Filmes: comentários

FILME

“Um lugar na platéia”

Um Lugar na Platéia

Foto: divulgação

Para além das trivialidades do espetáculo

Filme

Um lugar na platéia

Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Um pianista consagrado que sonha em fazer da música clássica, a qual se devotou, um motivo de encontro e congraçamento com aqueles que vivem à margem do glamour e da (tirânica) estética contemporânea, uma atriz que alcança incontestável sucesso numa novela de TV e que almeja a chance de interpretar (numa ótica feminina, naturalmente) Simone de Beauvoir no cinema – enquanto experimenta subverter texto e interpretação vistos como tradicionais e necessários numa peça teatral -, um importante colecionador que no percurso final da vida e sofrendo de câncer toma a decisão de renovar-se, leiloando suas peças e afirmando sua vida amorosa com uma mulher bem mais jovem, após a viuvez (sem ilusões, mas ainda com a chama da paixão acesa) e, last but not least, uma jovem sonhadora que se põe a seguir os passos indicados por sua avó, ousando a proximidade e o encantamento com o “luxo” sem com ele se confundir ou mesmo afundar. Eis aí uma “tribo” – pouco convencional, reconheçamos – que habita o universo do espetáculo parisiense e experimenta a arte do encontro humano que não segue os ditames do sucesso a todo custo, praga que insiste em se impor a todos.

          Este o enredo de uma delicada (dita) comédia romântica, na qual os personagens, ao sabor dos acasos, se aproximam, conflitam, sofrem, amam e criam com a velocidade dos tempos atuais, mas mantendo um generoso e sagaz distanciamento das superficialidades opressivas que nos assolam quotidianamente.

Ao contrário, todos parecem, em algum momento, escarnecer de suas próprias trajetórias (para o velho Nietsche, rir de si mesmo é sempre salutar, vide as cenas onde já na estréia da peça, nossa perspicaz “Simone de Beauvoir” arranca risos rasgados de todos, com seu modo singular de interpretar um autor clássico), e fazem dos dramas e desencontros um motivo a mais para eleger a vida como o dom maior ao qual devemos nos devotar. O trabalho de Daniele Thompson inclui um roteiro com diálogos inteligentes, interpretações na medida exata da proposta do filme, uma trilha sonora na qual as notas musicais dão um tom de suavidade ao ritmo de valsa e um movimento de câmera capaz de captar (produzir) imagens belas (com uma ótima fotografia) de uma Paris sempre esfuziante, personificada num café (como não poderia deixar de ser!) no qual, como é dito pelo seu gerente, todos os tipos têm o seu lugar, quer habitem o universo do show business ou não.

“Um lugar na platéia” no original Fauteils D’orquestre, literalmente poltronas da orquestra, sugerindo metaforicamente o lugar que ocupamos diante de um grandioso espetáculo, faz deste lugar algo mais do que um mero motivo de encantamento, mas uma oportunidade de pensarmos sobre o que se dá entre a platéia e o espetáculo: lugar que nos convoca a pensar criticamente sobre os modos de existir possíveis e sobre aqueles que, ainda impossíveis, se apresentam como intensidades desconhecidas e perspectivas abertas,ofertadas permanentemente (é o que transparece numa das mais belas cenas, onde o pianista, se despojando de parte se suas vestes, lembra ao público que sua arte não se deixa capturar nas burocracias e modelos impostos, o que não o impede de terminar brilhantemente seu concerto).

Além disso, há a alegria de experimentar o inesperado (atenção para a cena onde a jovem Jéssica, falando para um taciturno professor de quem se aproxima amorosamente, lembra que os chamados que se põem “fora de hora” podem ser recebidos com leveza e curiosidade, ou a leveza da curiosidade) e a mensagem de que arriscar (atenção para a última cena, linda) é algo necessário. É o que fazem, cada á sua maneira, os personagens, é o que afirma o filme, na sua própria materialização. Afinal, retomar uma comédia romântica, em tempos onde o glamour se dirige para a violência e brutalidade, é uma aposta repleta de riscos...

De quebra, algo que atravessa sutilmente o enredo: a estória de uma “aposentada” que tendo passado a vida no contato com vários artistas, ajudando e acolhendo-os, experimenta acolher também a jovem protagonista e a atriz, oferecendo suas lembranças e simples, mas generosas, acomodações. A homenagem que recebe de todos ao final é apenas um dos vários momentos emocionantes do filme. Assim, “Fauteils D’orquestre” é uma referência obrigatória para quem gosta de um cinema que sem deixar de ser crítico e pensante, alcança a proeza de emocionar pela sutileza dos movimentos e o jeito carinhoso de abraçar e convocar a ocupar mais um lugar na platéia. Os espectadores agradecem e aplaudem.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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