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“FOI APENAS UM SONHO” de Sam Mendes

“FOI APENAS UM SONHO” de Sam Mendes

Foto: Leonardo DiCaprio e Kate Winslet

Para sepultar as ilusões do “american way of life”

Filme

“FOI APENAS UM SONHO” de Sam Mendes

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• O estabelecimento de relações sociais organizadas com o objetivo primordial de sustentar os valores e modo de viver da sociedade capitalista ocorreu de vários modos e através do exercício sistemático de poderes que não se reduziram às ações oficiais do estado e/ou aos imperativos da lei no sentido jurídico. Isto tem se constituído em estudos de importantes pensadores, oriundos de campos diferenciados de saber. A estória que serve de estofo para o recente exercício estético de Sam Mendes (do ótimo “Beleza Americana”) é forjada a partir de um olhar (literário) que não só reconhece as reflexões produzidas por estes conhecimentos como também - com uma cruel lente de aumento sobre os dramas quotidianos de cidadãos comuns – explode as bem montadas “verdades naturais” desse modo de existir, colocando a nu sua violência e brutalidade.

Assim, na adaptação do romance de Richard Yates, Revolutionary Road (título original do filme), vemos as consequencias funestas de uma sociedade que obriga ao moralismo mais cínico, seja ele sexual ou não, que exige dos corpos/existencias uma sujeição só percebida no extremo da culpa e da amargura, que fixa como desordem tudo aquilo que não se adequa ao formato de obediência proposto, de modo a apagar cada chama por onde um esboço de criação possa se esgueirar. Tudo isso em nome do sonho de progresso e prosperidade, da reificação da família e do casamento – ficando a mulher restrita à função materna e ao serviço do lar – da mediocridade consentida e até ambicionada do homem que cresce em seu trabalho (que ele mesmo reconhece não trazer qualquer expansão para sua vida), com vistas a se estabelecer dentro dos parâmetros do bom funcionário que se torna um dia o chefe que vai impulsionar os novos avanços da indústria e da tecnologia. Neste estado de coisas, seria mero acidente que uma palavra mais lúcida e corajosa viesse dos loucos e das mulheres?

Sociedade fálica e hipócrita, o “mundo” que alcança Frank e April Wheeler deixa poucas possibilidades fora das suas redes e armadilhas. Criar linhas de fuga torna-se condição fundamental para viver. É isto que em algum momento este típico casal americano experimenta sonhar, reconhecendo a insuficiência do modelo que se impunha como único. Mais do que isto, exercita dizer e afirmar sua escolha aos pares, da vizinhança e do trabalho. Os silêncios (destruidores) que recebem de resposta, aliados aos seus próprios medos e dificuldades pessoais, além de tornarem esse sonho impossível, rompem os laços de fraternidade e cumplicidade que os unia. O resultado é melancólico.

A devastação da esperança que em algum momento serviu de alimento ao casal Wheeler, mostra bem a força da maquinaria que move o “jeito americano de viver” (que afinal foi exportado e serviu de referência. obrigatória). Nela até mesmo as psicologias e psiquiatras são convocadas como guardiãs da ordem e da manutenção do comportamento submisso aos valores, erigidos à condição de verdades inescapáveis. Camisa de força invisível e onipresente, sua ação tem como resultado o recalque e a mesquinhez.

Pode-se argumentar que isto ainda não é o filme. O romance de Yates não faz concessões e se tornou um clássico exatamente por isso. O filme? Bem, nele encontramos um enorme respeito pela densidade da estória, com imagens que captam com cuidado a atmosfera contraditória, paradoxal, cada vez mais dilacerada do casal, além de retratar, com a argúcia do detalhe, os gestos, olhares, movimentos corporais e afetações de todos os personagens que comparecem na estória. De tal modo, que em muitos momentos não é preciso sequer o diálogo para mostrar e caracterizar a função que exercem e o lugar social que ocupam/aspiram.

Neste sentido, de uma beleza deslumbrante são os momentos em que somos impactados pelo excesso de sentido que toma os relacionamentos, com delicadas sugestões do que não pode ser dito e até do que é indizível, sem que as falas, nos seus ritmos e intensidades próprias percam o interesse. Ao contrário, as cenas convocam ao sinistro e ao inquietante justamente na “fotografia” dessas incongruências e silêncios, sem desautorizar os dizeres, sejam eles cravados de angústia e/ou desespero, alegria e/ou sensualidade.

Com um roteiro sem excessos (a cargo de Justin Haythe), mas propondo uma tonalidade crítica e convocando à reflexão, não há nenhum momento de descanso para o espectador. Até mesmo os momentos em que o riso é provocado sugerem um gosto amargo, como aquele em que o psicótico John diz que os eletrochoques tiraram seu raciocínio matemático, mas não aliviaram suas angústias e problemas... A direção de Mendes toma o caminho mais delicado de acompanhar a riqueza de questões que vão se pondo para cada indivíduo com convive com Frank e April. Seus enquadramentos não possuem reducionismos psicologizantes nem mensagens apaziguadoras. Felizmente, sua lucidez permite que a cena em que palavra mais verdadeira a ser dita sobre a derrocada do casal venha de um insano, seja uma das mais fortes do filme.

Os deleites cinematográficos não se esgotam nisto. Há um elenco de primeira e as atuações sensacionais de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet (Frank e April Wheeler). Com uma maturidade admirável, ambos protagonizam um verdadeiro “duelo de titãs”, com sutilezas faciais, corporais, e uma temporalidade perfeita na execução das falas. Exercício que deixa entrever uma preparação de elenco (no qual comparece a ótima Kathy Bates) esmerada. Não podemos esquecer de Michael Shannon (John) que interpreta um louco sem estereótipos e também sem romantismos.

Enfim, lembremos da música de Thomas Newman, com acordes hipnóticos e indicativos de um cenário invisível e sempre presente, que resulta do modo como os protagonistas e personagens a eles mais próximos habitam suas dores e vivem seus vazios e a solidão que atravessa suas existencias. Música que tem o dom de nos colocar na ante-sala de um sonho... de angústia. <

O filme é simplesmente magnífico! Mas se você prefere a comodidade e o conforto das estórias com finais suaves, sem maiores inquietações e sustos, não vai gostar. Seria até melhor nem passar perto.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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