Comentários de filmes

COMENTÁRIO DE FILME

“Gigante” de Adrián Biniez

Gigante de Adrián Biniez

Foto: divulgação

Homenagem ao olhar como gesto de encantamento e invenção

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“Gigante” de Adrián Biniez

A proposta contida na estória de um homem que se deixa capturar pelo “quadro” de uma bela mulher que ele vigia no cumprimento de seu trabalho surpreende menos pelo desenrolar da trama (até bastante banal e óbvia) do que pela maneira com que o jogo de captura se estende ao espectador, também ele presa do fascínio exercido pelo olhar, e, no caso, pelo fascínio de testemunhar o olhar de um homem que aos poucos vai se apaixonando, e, com isso, mudando alguns costumes de sua vida.

Interessante constatar que de algum modo é a própria experiência do cinema que é mencionada, na medida em que esse movimento de captura é resultado do encontro entre imagens e sentidos que não existem por si só, mas apenas naquilo acontece entre aquele que olha e registra algo em sua percepção e o objeto percebido e desejado. Nenhum dos dois é inteiramente ativo ou passivo, ambos colaboram para uma experiência que é de invenção e de encantamento, o que permite pensar que entender ou interpretar alguma coisa ou alguém é um permanente jogo de espelhos, porque naturalmente o intérprete sempre está presente.

Assim, Jara se “envolve” com Julia sem que esta saiba, a partir de um momento no qual por uma centelha qualquer as imagens captadas pelo aparelho de vigilância do supermercado onde trabalha alcançam Julia na sua graça e espontaneidade, impregnando os registros do circuito interno de uma intensidade especial. Tímido e um tanto bronco, Jara funciona com um protetor da sua amada, ao mesmo tempo em que se vê impelido a segui-la, tentativa desesperada, às vezes cômica de apreender e se aproximar, cercar o objeto, que por uma ironia se mostra muito próximo e também muito distante. Não resta dúvida de que Jara também é olhado, e aí as cenas em que aparece surpreendido pelo mesmo tipo de câmera que utiliza no seu cotidiano são fundamentais para a compreensão da trama, além de belas em sua simplicidade. Talvez pudéssemos até dizer que o apaixonamento de Jara ocorre como num encontro com um quadro que nos arrasta e diz em seu silêncio alguma coisa de fundamental. Aqui é Lúcia que vai sendo investigada e exposta, controlada em suas ações, mas por um efeito que só os enamorados podem explicar (se é que podem) quem acaba controlado é Jara cuja rotina de vida passa a ser devotada a Julia, sem contar com as (hilariantes) coincidências que deixam nosso herói de calças curtas, diante da possibilidade de ser descoberto. Trapaças da sorte?

Seja como for, a lição que ele extrai no contato com sua solidão, agora colorida pelos traços de uma expectativa amorosa, são mostradas de modo a afirmar a importância desta experiência para sua vida, na maior parte do tempo inerte e infantil. Jara inventa uma vida para viver e uma mulher para desejar e isso compõe seu mundo de maneira real. A tal ponto que isto muda até sua relação passiva com o trabalho e o uso dos objetos a seu dispor. Ao final podemos pensar que a aproximação acontecida não é nem mais nem menos real do que as outras, apenas um pouco diferente...

O trabalho de Adrián Biniez tanto no roteiro quanto na direção é cuidadoso e lúdico, fato que impede que as cenas mais longas (de busca pelas ruas e lugares freqüentados pela musa) e as repetições que caracterizam a rotina bruta do personagem se tornem enfadonhas. Além disso, consegue contar a estória sem exagerar nos diálogos (coerente com a proposta de dizer sobre o olhar com o olhar), estabelecendo um ritmo que acompanha com precisão a sutil provocação que vai se fazendo entre Julia e Jara, até o desfecho, gracioso e com direito a uma romântica canção. Os atores vão bem, sem brilhantismos e sem deslizes interpretativos. A dupla tem Horacio Camandule e Leonor Svarcas tem a química adequada.

A fotografia flagra bons tons e aprimora, no contraste em preto e branco, as questões que o filme traz.

Com “Gigante”, assistimos a um belo exercício de reflexão sobre o desconcerto a que nos expomos com os impulsos que nos acossam e excedem, além de viver uma deliciosa provocação a todos aqueles que, como os cinéfilos e outros amantes, se abandonam com prazer ao ato de olhar.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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