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“HÁ MUITO TEMPO QUE TE AMO” de Philippe Claudel

“HÁ MUITO TEMPO QUE TE AMO” de Philippe Claudel

Foto: divulgação

Ensaio sobre a reconstrução da vida pelo laço fraterno

Filme

“HÁ MUITO TEMPO QUE TE AMO” de Philippe Claudel

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• A discussão posta nesta produção franco-alemã (2008), primeira incursão do renomado escritor Philippe Claudel como diretor, parece se dirigir diretamente aos conhecidos motes da cultura da performance e do individualismo, sustentada na negação da morte e no esquecimento compulsório das diferenças e multiplicidades. Através de um enredo que focaliza a luta de uma mulher para retomar sua vida após quinze anos na prisão, “Il y a longtemps que je t’aime” (no original) oferece, sem qualquer disfarce, farta munição contra as megalomanias - travestidas de naturalidades necessárias para a felicidade e o bem estar das pessoas – que se impõem no dia a dia. Desde o ritmo lento (sim, não há nenhum compromisso com a lógica do vídeo-clip) até aos diálogos que buscam caracterizar a densidade das relações que vão se mostrando, a convocação é para dilatar a temporalidade de acordo com as exigências do pensar. Deste modo, a imersão proposta logo nas primeiras cenas vai nos seduzindo a habitar outras cenas, estas apenas sugeridas no jogo que se faz entre as afetações expressadas pelos personagens e a captura sensível que delas fazemos.

A rigor, a contribuição maior deste trabalho está exatamente na capacidade de produzir esta sensibilidade, com enquadramentos que destacam uma atmosfera opressiva (que aos poucos vai se transformando em seu inverso), e em planos – especialmente primeiros planos - que permitem acompanhar em cada personagem os traços de suas inquietações e angústias, ao lado das esperanças e pedidos de acolhimento. O roteiro (também assinado por Claudel) destaca as questões, dolorosas, mas repletas de magia, que se presentificam no reencontro de duas irmãs, mas não se compraz em reduzir as coisas a este relacionamento, com toda a sua carga dramática. Ele segue uma trilha que aponta a possibilidade de vida nos múltiplos encontros que vão se fazendo, com suas delicadezas e singularidades, propondo sempre para cada um aprendizados que não seguem normas (pré) estabelecidas. Ao contrário, trata-se sempre de reaprender com aquilo que é estranho ou mesmo cercado de uma aura de mistério e horror.

Assim, o andamento da estória pode prescindir na maior parte do tempo das tiradas melodramáticas para mostrar, às vezes com crueza, a trajetória dura de uma mulher que num momento limite de sua vida tomou uma decisão extrema, cujas consequências vão muito além da condenação a que se viu exposta. Ao mesmo tempo, o entorno que compõe sua nova vida, irá lhe trazer outras expectativas e esperanças. Os laços se farão mais fortes do que o isolamento a que se devotava, e isto será o ponto alto da trama, até seu desfecho, bonito e comovente na sua simplicidade.

Então, Juliette vai morar na casa de Lea, irmã mais jovem que quer recebê-la não só para refazer e resignificar uma relação intensa, abortada de maneira traumática. Lá estará em companhia das filhas de Lea, seu marido Luc e o pai deste, personagem emblemático por encarnar um silêncio obrigatório, após um problema de saúde. A convivência será ardida, claro, mas o mundo que Lea apresenta para a irmã é mais vasto. Nele, Juliette encontrará Michel, figura que servirá de elo para outras viagens, estas mais alegres.

Mas há outras experiências que afetarão a protagonista. Dentre elas, o contato com o policial responsável em acompanhar sua condicional é muito interessante e até bem humorado. Ao final, sem negar o sofrimento e a dor que estarão presentes de maneira permanente na sua vida, Juliette aceita sair do silêncio e se entregar à vida, ao menos aquela que é possível fazer a partir daí. Num só tempo, o luto de toda uma existência se verbaliza à luz do dia e diante de um outro amado. O efeito disso é poderoso e definitivo para construir um outro tempo e uma outra vida.

O trabalho dos atores, destacado pelos recursos de enquadramentos e movimentos de câmera, é excelente, principalmente a dupla Kristin Scott Thomas (Juliette) e Elsa Zilberstein (Lea). Ambas encarnam com maestria as intensidades que perpassam seus personagens, e, sem apelações, denotam um aspecto fundamental da estória: o forte carinho que une as irmãs, não obstante as mágoas, responsável no final de tudo pela reconstrução da vida de ambas. O trabalho de Laurent Grévill (Michel) e Fréderic Pierrot (o policial Fauré) também são dignos de registro. Outro deleite é a fotografia (Jerôme Alméras), trabalho cuidadoso e respeitoso aos detalhes afetivos das cenas. Igualmente, a trilha musical de Jean Louis Aubert pontua com precisão não apenas a solidão, mas principalmente o mistério da experiência de Juliette. As cenas onde se associam o olhar distante e melancólico da personagem e os acordes tensos e doloridos são das mais belas do filme.

“Há muito tempo que te amo” é um trabalho que além de tudo não dispensa uma referência positiva à literatura e outras artes, na própria textura do enredo. Como a dizer que o exercício contido na arte de viver (e viver o cinema) exige múltiplos encontros. Só isso já é motivo para prestigiarmos esse belo filme.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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