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“Hotel Atlântico” de Suzana Amaral

“Hotel Atlântico” de Suzana Amaral

Foto: divulgação

Exercício vigoroso de ousadia estética

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“Hotel Atlântico” de Suzana Amaral

Em tempos de Blockbusters e de busca desenfreada por filmes que confirmem universos codificados, plenos de ordenações de sentido e explicações rápidas sobre como devem ser nossas vidas e potências, o mais recente trabalho de Suzana Amaral experimenta seguir o contrafluxo: ancorando-se no romance do inquieto e provocador João Gilberto Noll se presta a mostrar uma estória que flerta com o não sentido das situações e destaca o absurdo e o vazio como presenças permanentes da vida. Assim, sem buscar álibis ou confortos na hipocrisia cultural, acompanha a experiência da dispersão com sobriedade, sem os melodramas e clichês com que nos acostumamos. Corajosa, não?

É bem verdade que o romance de Noll não faz concessões e o ritmo de sua escrita deixa perceber o convite à curiosidade mais despojada de adentrar as intensidades e fluxos que não se conjuntam com verdades dadas e consagradas. Ao contrário, o convite é cruel e se dirige para nos pinçar no ponto mais sensível onde nossos prazeres se confundem com os grandes medos e horrores. Por seu lado Suzana não deixa a peteca cair e filma uma trajetória que não busca redenção nem heroísmo. Seu protagonista encontra algum sentido para seu momento de vida quando se descobre e redescobre orfão e paradoxalmente livre para viver os acontecimentos, até mesmo aqueles que ceifam sua carne, trazendo dor e desesperança.

Alberto empreende uma louca viagem (para os padrões mais conservadores), conhecendo as mais estranhas criaturas e, por vezes, conhecendo mais de perto a mais estranha delas que é ele mesmo. Os encontros se dão à luz de interesses momentâneos, sejam eles produtores de solidariedade como ocorre com o sacristão de um distante e improvável interior, ou de violência e brutalidades gratuitas, como acontece com os parceiros de um bar. Não há territórios delimitados nem laços sólidos e duradouros. Mas, como num dos principais encontros, há esperança, não como afeto paralizado pelos ideais impossíveis, mas ambição positiva em conquistar novos territórios.

O filme mostra com agudeza e precisão os pontos de fratura das certezas e verdades, ao mesmo tempo em que chama nossa sensibilidade para a presença do acaso. Ao final, temos a exata noção de que a vida e as escolhas que fazemos, com todas as suas consequências (muitas delas difíceis de suportar), são em grande parte obra deste acaso. Nas encruzilhadas onde um fio nos separa de outras vidas e encontros e até da morte, pode estar se decidindo um destino do qual poderemos falar depois, mas que na efetividade e potência da escolha é irreversível. Permitir essa compreensão é prova da competência do roteiro (muito bem amarrado) e da capacidade de direção, que segue os fluxos narrativos sem abrir mão dos detalhes da trama e da consistência dos personagens.

A fotografia capta de maneira delicada as tonalidades das fantasmagóricas vivências, tanto quanto dos acolhedores momentos de paz e diversão. A opção estética de transitar entre uma leitura mais objetiva e um ponto de vista subjetivo, que descreve de dentro as argúrias de Alberto é mais uma prova da ousadia da diretora. Os atores estão muito bem. Julio Andrade incorpora Alberto na medida exata, Gero Camilo dá um baile como o sacristão acolhedor e com histórias super insólitas. João Miguel capta bem a atmosfera de proximidade entre o sofrimento e a nudez da entrega ao desejado mesmo sem ser conhecido. Mariana Ximenes, galante, faz Diana, mulher exuberante que se vê desamparada onde menos esperava. Isto para falar dos mais conhecidos. Mas não há nenhuma interpretação fora do tom. A música consegue afirmar algo mais incidental, adequada ao silêncio para o qual convergem a maioria das situações e absurdos.

Enfim, “Hotel Atlântico” deve ser visto sem a expectativa de um final que apazigue as angústias e desconcertos. Por isso mesmo é belo. E necessário.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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