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“KATYN” de Andrzej Wajda

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Foto: divulgação

Mensagem contra o apagamento da memória dos horrores totalitários.

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Katyn de Andrzej Wajda

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• O trágico episódio reconstituído neste trabalho de Andrzej Wajda é apenas mais um dos muitos que marcaram a segunda guerra. Concerne especialmente à Polônia, sua terra natal, numa história que descreve uma experiência traumática de devastação: invadida a leste e oeste por alemães e soviéticos, ambos com projetos similares de campos concentracionários e espoliação violenta, o povo polonês se vê remetido e exposto à brutalidade do invasor e ao inominável sentimento de não mais pertencer aos territórios (geográficos e afetivos) que até então constituíam o suporte fundamental de sua vida. Atropelado pelos fatos e sem poder dar um sentido plausível e aceitável às perdas que vão ocorrendo, restará o esforço para sobreviver, acercar-se dos próximos e buscar notícias dos “desaparecidos”. Mas quem poderá dizer desses fatos? A quem caberá dar a versão oficial dos massacres cotidianos vividos pelos seqüestrados e seus parentes? E que conseqüências restam para os sobreviventes?

Num fiapo de lembrança que insiste sem remissões, o filme se nutre para rever as dores relacionadas ao massacre soviético de oficiais poloneses na floresta de Katyn. Dores que são tanto maiores quanto maiores são as constatações de conivência com o invasor, a maior delas caracterizada pela atitude de delegar ao vencedor os louros e contar sua própria versão, constituindo para os fatos memória e sentido de acordo com seus próprios interesses.

Assim, se os soviéticos matam fria e brutalmente um sem número de soldados poloneses com um seco tiro na testa, sem que qualquer um deles pudesse se defender, ceifando laços e produzindo ausências irreparáveis, observa-se uma certa passividade diante da propaganda veiculada tanto por nazistas quanto por soviéticos sobre a responsabilidade pelos fatos. As estratégias de ambos os lados (bem como as ameaças que as pessoas recebem quando se dão conta do jogo manipulatório) mostram bem como a questão ética se faz presente, no ponto onde se trata de saber qual é o valor da própria existência em circunstâncias como esta. Claro, sempre haverá quem resista e lute pela mínima restauração da verdade, permitindo que o luto possa se fazer com dignidade. Mas eles serão os próximos desaparecidos. Esquecer suas vidas e ações seria novamente compactuar com o agressor, elegendo falsos ideais, lá onde o sangue escorrido ainda clama por algum testemunho.

O filme segue em duas frentes: a dos parentes que ficam com as ausências compulsórias (por conta da ação de nazistas ou stalinistas, que em algum momento estiveram juntos nesta empreitada) alicerçando-se na corda bamba da esperança e a dos seqüestrados, no caso os oficiais conduzidos pelas forças stalinistas. Em ambos acompanhamos os efeitos do projeto totalitário, arrogando-se à pretensão de manipular os destinos. Acompanhamos também os esforço ético de colocar em questão a própria sobrevivência em nome do projeto de respeitar ( e até resgatar) a memória daqueles que se foram. Projeto que é também de Wajda.

Assim, baseado no livro de Andrzej Mularczyk, o roteiro articula esses dois ‘mundos “através de passagens ritmadas, com alternâncias que permitem perceber os efeitos doloridos para todos os envolvidos. Se o enfoque inicial se dá na vida do oficial Andrzej (e sua mulher e filha), destacando sua recusa em desertar do exército e dos ideais que desposou com isto, mais adiante outros personagens farão sua entrada em ordem de importância, inclusive aqueles que viverão o dilema de dizer a verdade ou compactuar com a mentira. De todo modo, é de Andrzej o diário que chega às mãos de Ana, descrevendo uma parte da história que vemos. Não só o roteiro, sensível na descrição dos personagens e suas dores, igualmente a música (Krzysztof Kenderzki) evoca todo o tempo uma dor profunda e até indizível que acompanha a morte. A fotografia (a cargo de Pawel Edelman), com tons sempre escuros, se permite iluminar apenas os rostos em sua expressão de afetos transbordantes, olhares que contemplam o nada, desesperos que nenhuma esperança consegue apagar. Genial composição.

A direção segue respeitosamente as linhas mestras da história, com cenas (e cortes de cena) capazes de provocar angústia, forçando a empatia do espectador com a experiência dos protagonistas. Seu maior mérito está em ter passado longe de qualquer apelo melodramático. Não há clichês para choros e sim espaço aberto para uma reflexão sincera, aquela que emana do contato visceral que o diretor mostra ter com a história. As últimas cenas, que versam diretamente sobre o massacre, são cruas, expondo diretamente, em tom praticamente documental, a brutalidade e covardia dos assassinos. Lembra o grande Polanski de “O pianista”. Não há sequer fundo musical. Tudo é seco e silencioso, como a tragédia que é mostrada.

O elenco segue com despojamento as questões que o filme suscita. Todos estão num ótimo nível.

Assim, Andrzej Wajda parece nos dizer que manter a memória dos horrores de que foram vítimas nossos antepassados é uma maneira de superar os traumas que nos acossam. Relega-los ao esquecimento seria outro modo de exterminar sua memória, duplicando a brutalidade a que foram expostos os que viveram tais fatos, nos impedindo de fazer o luto necessário para refazer o futuro.

É um belo e duro filme. Difícil de engolir, mas obrigatório.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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