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“LEONERA” de Pablo Trapero

LEONERA de Pablo Trapero

Foto: divulgação

Crueza e ternura para dizer sobre o indecifrável do amor materno

Filme

“LEONERA” de Pablo Trapero

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Na primeira “cena” de “Leonera” escutamos uma cantiga infantil que vai pouco a pouco referenciando as coisas do mundo e o próprio mundo. Ainda estamos nos créditos iniciais e a tela está escura. É inegável o apelo terno e lúdico que a música traz, ao lado dos traços simples, desenhados com brevidade. A cena seguinte trata logo de despojar esses ânimos e somos imediatamente convocados a testemunhar no corpo da protagonista Julia as marcas de um episódio brutal, para dizer o mínimo. No desenrolar dessa seqüência, com uma velocidade tão vertiginosa quanto precisa é a concatenação dos fatos, Julia está na prisão acusada de matar se namorado, enquanto o outro patnner desse triângulo se defende acusando-a de atitudes que ela sequer lembra. De um extremo a outro é o espectador que se vê desconcertado e imediatamente capturado na história e nos sentidos que ela propõe.

Eis então Julia, presa... E grávida! Atônita e desesperada, Julia se experimenta na mais absoluta solidão, até que acolhida pelas outras mães - que lá estão com seus filhos – encontra meios de aceitar sua gravidez e fazer dela um modo de superação e simbolização de suas perdas. O filme de Pablo Trapero consegue transitar com desembaraço entre um duro e cruel retrato do mundo prisional (menos pela violência mais comumente destacada do que pelo isolamento e atmosfera disciplinadora) e uma delicada e doce atitude para descrever (como na música inicial) a descoberta de cada “pedaço” do mundo que Julia terá que conquistar, inclusive questionando e lutando contra determinados valores enraizados no campo jurídico.

Pedaços do mundo e pedaços de vida afetiva que se reconstrói na amorosidade de Marta, nos berros alucinados do filho, nas aparições da mãe, vinda de muito longe e ainda muito longe de entender o destino da filha, e até mesmo nas visitas do espertalhão Ramiro, que malgrado suas próprias intenções colocará uma baliza importante para as questões com as quais Julia terá de se haver. O interessante é que Trapero filma todas essas intensidades sem qualquer pudor de expor suas cores e tons mais amargos, tanto quanto os brilhos e impetuosidades que circulam entre os corpos. Em plena prisão há maternidade, erotismo, ódio, solidariedade (também dos agentes carcerários), crianças correndo, infância afirmativa (às vezes também das mães) e alguma esperança. Nudez e proteção convivem e se interpenetram, permitindo vivências belas como as de Marta e Julia (em lindas cenas, sem qualquer apelação), fazendo do cuidado de si próprias uma conquista a mais.

As reviravoltas que caracterizam a trama reforçam o traço provocador da estética desenvolvida por Trapero: durante todo o tempo trata-se de mostrar subjetividades em transformação, inquietas, pulsantes, sobretudo por conta da exigência de pensar o futuro a partir da maternidade – a lei que se encontra em questão manda que após 4 anos as crianças sejam separadas de suas mães para serem encaminhadas ao juizado. As ações se passam, num plano mais imediato, numa prisão de segurança máxima. Contudo, há em outros planos, ausentes da visão, mas presentes na perspectiva que reconhece os sonhos mais irascíveis de Julia, ações que sustentam quadros sem os quais viver seria impossível, não desejável até. Desenho invisível, mas que eriça a pele e que fará todo sentido no desfecho da história.

Para contar essa história com as vísceras na mão “Leonera” se apóia na extraordinária atuação de Martina Gusman, capaz de suscitar os mais diversos sentimentos ao encarnar a impetuosidade algo pueril de Julia, porém repleta de valentia e dignidade. Linda e com um olhar severo (que expressa com precisão o modo conturbado de ser da personagem), Martina rouba quase todas as cenas, exceção feita àquelas em que faz par com Laura Garcia (ótima como a forte e doce Marta) e Eli Meirelles (sóbria e adequada como a mãe, bem intencionada, mas não menos conturbada). Rodrigo Santoro faz boas aparições, compondo o “cafajeste” Ramiro sem excessos e caretas. O roteiro (do próprio Pablo, Alejandro Fadel e Santiago Mitre) é bem interessante, deixando sempre no ar algumas falas e pensamentos, sem apelar para o didatismo e/ou clichê da heroína que descobre que o sentido de sua vida é a maternidade...

Assim, ver “Leonera” é constatar, como sugere o nome, o aspecto guerreiro da mulher que se faz mãe, fora das comodidades e fantasias que o mundo burguês oferece, descobrindo a maternidade como laço profundo com a vida, o corpo, a própria história. Sem que isso signifique obediência e submissão aos valores conservadores que pregam com insistência uma (suposta) naturalidade do desejo materno. Aqui aprendemos que a maternidade e tudo aquilo que a cerca é, em qualquer circunstância, um duro aprendizado, que como toda grande paixão, não tem que se explicada. Apenas vivida.

Site Oficial: www.leoneralapelicula.com

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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