Filmes: comentários

FILMES

“LINHA DE PASSE” de Walter Salles e Daniela Thomas

LINHA DE PASSE de Walter Salles e Daniela Thomas

Foto: divulgação

Ensaio sobre a solitária busca de novos caminhos

Filme

“LINHA DE PASSE” de Walter Salles e Daniela Thomas

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• É lícito dizer que em meio à densidade das questões trazidas neste filme há um ponto no qual podemos reconhecer alguns elementos recorrentes na filmografia de Salles. Eles falam da luta incessante para traçar rotas de fuga diferenciadas, diante da força de um destino que parece ser inexorável. Diante dos desafios assim colocados, trata-se de acompanhar os dilaceramentos, desesperos, enfrentamentos, estratégias e criações com que cada um se depara nesta difícil arte de viver no limite do abismo. Claro está que as perdas são dolorosas, o futuro se mostra nebuloso e as ferramentas com que se conta são escassas. Mas o caminho é positivo se construído com ardor, coragem e ousadia. Independente até do resultado final. Em “Abril Despedaçado”, por exemplo, na adaptação da obra de Ismail kadaré, isso era problematizado a partir de um universo fechado, marcado pela tradição de matança de duas famílias, circuito que o personagem principal tenta desmontar.

Em “Linha de Passe” reencontramos esse modo de pensar a relação do sujeito com as “escarpas” da vida, mas desta vez o universo é a cosmopolita São Paulo, mais especificamente sua periferia, contraste gritante com as imagens da burguesa zona sul, com seu glamour e estética que se pretendem padrões. Aqui a estética é outra, os sonhos se fazem com outros instrumentos, a linguagem e os recursos de reconhecimento da alteridade propõem outras referências, a própria família adquire outros contornos. Além de tudo, a discussão sobre o futuro e os projetos de identidade capazes de fornecer algum sentido aos atos recebem a marca do abandono social. Mesmo assim é possível encontrar, nessas vidas carentes de maior apoio, mas repletas de vigor e intensidade, a vontade de lutar e construir, com todas as contradições próprias do humano.

Os percursos de vida são de 5 participantes de uma família de classe média baixa: Cleuza - que se afirma mãe a pai de todos os filhos – é empregada doméstica e carrega no ventre outro filho cujo pai não é conhecido pelos outros, ausente que está da cena familiar. Dario, talento futebolístico tenta a sorte nas peneiras dos clubes, movido pelo sonho, comum a milhares de jovens, de alcançar um contrato como profissional de futebol. Denis é motoboy, pai de um menino que é cuidado pela mãe e trabalha pelas ruas enlouquecidas pelo trânsito da grande São Paulo, sonhando poder quitar a prestação de sua moto e responder aos apelos para ajudar as famílias. Dinho tornou-se evangélico e trabalha num posto de gasolina, na tentativa de normalizar-se diante dos apelos constantes da marginalidade a qual pertenceu. Finalmente, Reginaldo, filho mais novo, que sonha conhecer o pai, preto como ele, motorista de ônibus. Freqüenta os ônibus da cidade; neles busca o acolhimento de uma figura que busca construir em seu imaginário. O itinerário que segue percorre a cidade e a temporalidade que vive transgride os horários para ele estabelecidos.

O mais interessante é o modo como os personagens são mostrados, em suas relações e dramas cotidianos. Ao invés de explicar e estabelecer normas, Salles/Thomas se postam na veia de cada um deles. A cada instante os movimentos de câmera e a (linda) fotografia captam as afetações, fluxos, ilusões, esperanças, ódios. Sem a pretensão de indicar a melhor saída. A grandeza de todos está na disponibilidade para o jogo, para a troca de passes, relançando perguntas e vazios como maneiras positivas de encontro com as dificuldades. Sua solidão e seus medos sugerem uma pergunta crucial: O que é necessário para que se façam laços capazes de sustentar e dar sentido ao projeto de transformação das experiências e afirmação de si?

O filme pontua todo o tempo as situações-limite vividas por cada um dos membros dessa singular família. E de maneira respeitosa encontra o belo lá onde ele parecia não existir: o esforço da mãe para cuidar dos filhos, trabalhando grávida e afirmando valores tais como honestidade e compromisso com a vida e bem estar dos outros; a disponibilidade e alegria de Dario em praticar um bonito futebol, submetendo-se até aos “jogos’ de chantagem próprios da política do meio futebolístico, em nome do sonho de afirmar-se como jogador; o despojamento de Dinho na igreja que freqüenta, negando-se inclusive a lucrar com a fé que professa para si e para os outros; as confusões de trabalho e amorosas de Denis, dividido entre o apoio aos familiares e o compromisso em cuidar do filho; a busca incessante de Reginaldo pela figura paterna, esperando da mãe uma palavra que não vem. Diante da violência que se afirma como natural todos encontram espaço para atos solidários e afetuosos, ainda que conflitando e aderindo vez por outra à mesma violência da qual tentam escapar”.

O filme não nos reserva nenhum “happy end” mas a julgar pela última cena (belíssima) aposta na liberdade de ousar e criar, fazendo dos pavores e impossibilidades pontos de partida para desenhar horizontes nos quais uma outra vida possa se fazer viável. Claro está que o modo poético como tudo isso é tratado faz desse trabalho algo que exerce grande fascínio. Roteiro, diálogos, passagens de cena, interpretações – desnecessário falar de Sandra Corveloni, premiada em Cannes, mas todas os outros “filhos” estão magníficos, especialmente Kaique Santos, como Reginaldo - tudo é feito com delicadeza, assim como a trilha musical. Esta possui o dom de marcar a intensidade das situações através de acordes que abrindo mão do mais óbvio, indicam aquilo que está além do dizível e significável. Em todos os momentos.

Assim, “Linha de Passe” é um grande filme. Merece todo o nosso aplauso a certeza de que vale a pena ver. E rever.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

Poste um comentário