Receba as dicas do site pelo Fedd de Rss             

Música Popular Brasileira

Mart´nália - "Não tente compreender"

Por divulgação HSBC Brasil

17 de maio de 2012 - Quinta, no HSBC Brasil

Foto: Divulgação

Mart´nália volta a São Paulo para mostrar o resultado de seu recém lançado Cd “Não tente compreender”, dirigido e produzido musicalmente por Djavan. Neste trabalho, Mart’nália busca novos caminhos para além do samba e se arrisca no pop e no rock.

Além das músicas novas, o show deve apresentar sucessos anteriores como Cabide e Ela é a minha cara. A direção de luz do espetáculo é assinada por Ney Matogrosso.

INFORMAÇÕES - Mart´nália
Datas: 17 de Maio de 2012 |Horários: Quinta, às 21h30
Preços: de R$ 160,00 (Setor Vip) a R$ 80,00 (Setor 03)
Classificação etária: 14 anos

LOCAL - HSBC Brasil
Rua Bragança Paulista, 1281. Chácara Santo - São Paulo www.hsbcbrasil.com.br

Crítica do CD, por Geraldo Carneiro

A MÚLTIPLA MART’NÁLIA

Não vou contrariar o título do novo CD de Mart’nália, embora ele seja compreensível tanto em suas músicas como em seus conceitos. Imagino-o como um passeio de nossa heroína pelo Rio de Janeiro que ela tanto ama, e pelo qual sempre foi correspondida. Se o passeio-filme de Mart’nália tivesse roteiro, seria mais ou menos assim:

Em “Namora Comigo”, de Paulinho Moska, o cenário é a praia do Leblon. O menino espera a menina (ou vice-versa) e faz fantasias românticas. Enquanto ele a vê chegando à praia, com seu imaginário biquíni de bolinha, a música gruda feito chiclete na memória do seu ouvinte/ espectador. Como se não bastasse, o contraponto da voz de Mart’nália com os vocais de Djavan sugere que a imagem efêmera desse encontro à beira-mar vai perdurar até três dias depois do apocalipse.

“Surpresa”, de Mart’nália, Arthur Maia e Ronaldo Barcellos, é um road-movie à moda carioca, que se passa em muitos cenários. Digamos, desde o Carioca da Gema até o Clube dos Democráticos. É o elogio do hedonismo do Rio de Janeiro, da capacidade deste balneário de celebrar a vida em todos os seus momentos, sobretudo sob forma de samba.   

“Daquele jeito”, de André Carvalho, é a história de uma pessoa assombrada, cheia de visões metafísicas sobre o tempo e a eternidade. É como um filme-cabeça do Wim Wenders em que os anjos dizem coisas solenes sobre a vida e a morte, mas de repente aparece uma trapezista esplendorosa e a gente descobre que só interessa o amor.

“Depois cura” é o contrário disso: uma história de amor ao som de uma banda de pífanos. O que nos sugere que, apesar dos pesares, seremos felizes. E depois novamente infelizes. De quebra, alguns versos magníficos de Lula Queiroga: “Amar é remédio de louco/ pra recuperar a razão.” 

“Que pena, que pena”, parceria de Mart’nália e Mombaça, tem um refrão tão adorável que poderia ser repetido como um mantra por quinze dias. E se arremata com um texto de rap-rapsódia, à maneira de um recitativo de Vinicius de Moraes, sem medo de amar e de falar de amor.

“Não tente compreender” é uma canção de Dadi e Marisa Monte sobre o amor que passou, mas continua existindo num outro tempo, imóvel, onde paira a palavra impronunciada, o mito, sendo tudo e nada, e ideias como flores ainda à espera de outra era, ou só da primavera. Tem um verso maravilhosamente ambíguo: “Não deixe o coração partir.” É a ambivalência de um amor que já era, mas ainda não foi.

“Itinerário” é um samba de Max Viana que fala sobre a espera do amor. Mesmo porque o balneário do Rio de Janeiro não é tão grande, e a gravitação dos corpos no verão faz com que o encontro dos amantes seja inevitável. De quebra, o suingue de Max alicia a conspiração das estrelas em favor de sua paixão.

Martinho da Vila é um dos maiores fornecedores de alegria dos últimos quarenta anos da música brasileira. Paradoxalmente, em “Reverso da Vida”, ele fornece a Mart’nália a história mais dramática do CD. “Um homem chorando/ Amores desfeitos.”  A súbita explosão da dor e o ritmo seis por oito fazem de

“Reversos da Vida”, com seu lirismo trágico, um divisor de águas no CD.
“Serei eu?” é uma bela canção de Ivan Lins, com letra de Zélia Duncan e Mart’nália. Não vou parafraseá-la, caro leitor. Deixo por sua conta e risco a alegria de sua decifração.

“Eu te ofereço” é um samba com a arquitetura inconfundível de Gilberto Gil. A letra parece ser uma proposta indecorosa feita de maneira decorosíssima: “Eu te ofereço facilidades/liberdades que o amor não traz (...) Dou como exemplo o desapego/ Fora do templo do meu sossego/ Nas horas vagas por aí.” Uma cantada de primeira classe, que faz lembrar William Shakespeare nos seus melhores momentos.
“Os Sinais, de Junior Almeida, é como um segundo capítulo de “Acelerou”, de Djavan, com direito a citação no título e na harmonia. Adorável.
Um parêntese: creio que é desnecessário dizer que Djavan é um dos criadores mais notáveis da música brasileira, inventor de uma batida, uma maneira de cantar. Mas é fundamental ressaltar que este CD tem o privilégio da presença de Djavan na direção musical. Isto significa que a cada acorde, cada escolha de canção, cada inflexão de palavra, temos a intervenção de sua imaginação musical e de sua visão de mundo. É do encontro entre Djavan e Mart’nália que surge a alquimia deste CD, engendrado por duas personagens diversas, mas complementares, tendo como convergência o dom de encarar a vida como um ato fugaz, e, paradoxalmente, perene. Não vou tentar explicar o segredo da mistura, cada leitor/ouvinte que proponha a sua tese. Apenas regresso à viagem proposta pelas canções e fecho o parêntese.

“Demorou” é um samba aparentemente simples de Caetano Veloso, em que a expressão em carioquês do título encontra enfim a sua mais completa tradução musical. A sutileza fica por conta do pigue-pongue entre os sotaques do Estácio e do Recôncavo baiano. E talvez Caetano tenha emplacado um novo tema, em meio ao repertório clássico do samba.

“Zero Muito” mostra uma inesperada Mart’nália roqueira. A música, de Nando Reis, tem algumas imagens notáveis, como: “Mas acontece que o amor/ não tem razão, sua raiz/ é uma nação sem ser lugar/ não tem noção: o que ele diz?”   

“Vai saber” é um samba engenhoso da engenhosa Adriana Calcanhoto, sobre as dúvidas da arte de amar. Parece dizer, como um novo René Descartes: “Penso, logo existo? Ou dispenso, logo não existo?” Esplêndido. 

Mart’nália sempre teve carisma de estrela. Ou star quality, como se diz no português castiço de hoje. E soube confirmar todas as premissas e promessas nos CDs anteriores, cada qual com sua cara e seu charme. Mart’nália sempre foi brilhante e múltipla, como demonstra outra vez neste novo CD, em que ela é fiel ao seu talento e sua multiplicidade. Que os deuses da música a conservem assim.