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FILME

“Mutum” de Sandra Kogut

Mutum

Foto: divulgação

Inventividade e delicadeza no encontro com Guimarães Rosa

Filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“Mutum” de Sandra Kogut

• Mutum é nome de pássaro, no dizer de velha amiga conhecedora dos mistérios de Rosa (e que encontro pouco depois de ver o filme) “pássaro arisco, com canto característico e que não deixa achar facilmente”. “Mutum” premiado trabalho de Sandra Kogut, realiza um vôo belo e intenso cuja melodia transita em terreno escarpado pelas palavras do poeta e pelas imagens que ousam “dizer” exatamente o indizível. Mas, como podemos nos dar conta disso?

Antes de qualquer coisa, o estranhamento proporcionado pelas figuras que habitam o profundo sertão. Numa paisagem árida e numa atmosfera que prima pela solidão e abandono, vive a família de Thiago, pai, mãe, avó, irmãos, e um tio que logo se vai, expulso por conta de ato que avilta a moralidade prescrita. O pai, secura e dureza na face, nos gestos de todo o corpo, no olhar desencantado com que apreende o mundo, encarna a sina do adulto esmagado pela pobreza, ausente das palavras afetuosas, distante da possibilidade de exercer um mínimo de alegria como afirmação de vida. A mãe, doçura e força na empreitada insana de cuidar dos filhos e suportar as dores de viver longe do homem que parece realmente desejar, enfrenta silenciosamente o sofrimento que lhe alcança com o selo do inevitável, buscando no enternecimento do contato com os filhos algum sentido para o seu existir. Restam, para contar esta história, as crianças. E é justamente das marcas imprimidas pelo infantil que vamos encontrar a centelha de esperança (e riso!) do qual todos – inclusive nós, cinéfilos – pareciam definitivamente afastados.

Muitos risos, na verdade. E de muitos atos, não fosse o próprio riso ato inaugural da criação (ao menos neste filme). O banho faceiro na cadela, o brincar de navio com a pipoca, a gargalhada conjunta, experimento disjuntivo das significações sofrentes e congeladas. Também a fantasia e fabulação nos momentos que antecedem o adormecer. Para Felipe, irmão com quem Thiago troca confidências e alguns terrores noturnos, sobrevêm a morte, manto que o abraça de supetão em virtude da absoluta impossibilidade de cuidados médicos adequados para curar uma infecção comezinha.(as cenas nas quais os irmãos se alcançam neste infortúnio, vivendo a dor sem esmorecer um instante que seja da sensibilidade e do carinho são muito fortes). Mas, e para Thiago, principal “mestre” da trama, o que está reservado?

Bem, neste aspecto o filme alcança sua maior intensidade e sabedoria. Thiago é menino estranho ao pai (que não se cansa de nomeá-lo negativamente), e testemunha silenciosa de um drama que afasta definitivamente seu tio paterno do convívio do lar – este, por sua vez, nutre por Thiago todo o amor e respeito que o menino parece esperar do pai. É também diferente e sonhador (as palavras da mãe evocam isso), mas não se nega a participar das ordenações de praxe: busca aprender a trabalhar no roçado, a conduzir o gado e ajuda nos trabalhos da casa. Mas, acima de tudo olha o mundo com curiosidade e avidez, passeia pelos cantos mais inóspitos e, ao final, experimenta a redenção possível: vai para a cidade (em companhia de um médico que faz o seu trabalho pelo sertão e o convoca para mais essa empreitada) para estudar e viver novos desafios. É também este médico que observa a dificuldade de Thiago enxergar, doando um objeto que fará o mundo ainda mais interessante: um par de óculos!

É no acompanhamento da trajetória de “Mutum-Thiago” - seus encantos e desencantos, fantasias, perplexidades com a loucura do mundo dos adultos, pequenas e doces alegrias no convívio com os seus – que o filme se mostra capaz de nos apaixonar. É certo, como já foi reconhecido, que tudo é mostrado pela ótica da criança, com toda a sua inocência-sábia. Mas não é apenas isso. Há também um recurso a um tipo de narrativa que (se não é) está muito próxima do poético: visões do mundo carregadas pela câmera e visão do protagonista se contaminam, doravante libertos de contar meramente uma história. Ao contrário, a cada cena somos como que transpassados por algo que é da ordem do visionário, apresentado nos ângulos inesperados dos rostos e paisagens, no modo sensível de caracterizar a relação dos personagens com a vida (e a morte), na produção de uma temporalidade que passa longe do tédio e lentidão dos dias e noites sertanejos.Temporalidade que se faz e refaz nos movimentos que testemunham a busca de Thiago em dar sentido às suas experiências.

Além disso, há a captação respeitosa das interpretações de cada ator (todas elas excelentes), e a manifesta intenção de provocar intensidades mais do que compreensão objetivante (a cena na qual a mãe, pressentindo a perda de Thiago, consegue dizer com palavras ternas a positividade de sua ida para a cidade, falando ao seu ouvido, enquanto em sua face se misturam todos os sentimentos que caracterizam esta vivência dilacerada, é, talvez, o melhor exemplo).

Por tudo isso “Mutum” é para ser visto e revisto. Quanto mais não seja para que possamos nos encontrar com nossos sertões. E também com a criança. Na última cena, Thiago, pouco antes de partir, faz uma última doação aos seus: Pede ao seu novo “tutor” os óculos para que possa contemplar, com a nitidez e o tamanho adequados, as imagens de cada um e do lugar do qual começa a se separar. Curiosamente o que vemos junto com ele, não vem de uma visão ocular mais acurada, mas daquilo que o seu coração constrói, no momento. É para uma construção semelhante que somos chamados.

Para fazer jus à doação que o filme nos traz.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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