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COMENTÁRIOS SOBRE FILMES

"NOME PRÓPRIO" de Murilo Salles

NOME PRÓPRIO de Murilo Salles

Foto: divulgação

Uma viagem ao limite do visceral

Filme

Nome Próprio - Filme Com Leandra Leal

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• No dia do lançamento de “Nome próprio”, uma matéria escrita no segundo Caderno de “O Globo” chamou atenção. Nela, o diretor Murilo Salles, dentre outros chamamentos, conclamava os leitores a verem o seu filme sob o risco de este não mais continuar em cartaz por conta das exigências do distribuidor quanto ao número de espectadores. Bem, se a intenção principal era provocar um outro debate sobre o mercado cinematográfico e seus efeitos sobre as produções brasileiras, a chamada veio num ótimo momento (“poderosos” , como Batman, estréiam no circuito com muitas salas de exibição). Mas se o objetivo era apenas chamar para o filme, talvez nem precisasse. Isto porque em seu novo trabalho, baseado nos escritos de Clarah Averbuck, Murilo alcança a materialização de uma concepção de cinema ao mesmo tempo autoral e “popular”, se entendemos por esse último termo algo mais próximo da compreensão do senso comum. E o “link” é exatamente a linguagem rigorosamente carnal, seja no andamento da história, seja nos ousados e libidinosos movimentos de câmera, seja nas falas poéticas e intensas que atravessam o filme, do princípio ao fim.

A história de Camila sugere uma relação com o espaço e o tempo cibernético e com as palavras que nele circulam que em nada se parece com as bisonhas e bem comportadas ações que fazem de cada sujeito apenas mais um a participar do grande rebanho dos internautas cotidianos. Camila escreve e se expõe, escreve sua carne, escreve e se intensifica, escreve e se droga, escreve e escreve. Entrementes, escreve com atos ardidos uma história de conflitos, entrega ao excesso, errância assumida, e apenas um horizonte: manter-se viva para chegar à condição de escrever o livro, razão maior de sua vida, porto seguro (?!) e acolhedor para o corpo, que dolorido e permanentemente em chamas, pede. Seus encontros e opções éticas não se pautam pelo politicamente correto (aliás, este filme não é politicamente correto, felizmente!), perseguem até o fim o “inumano” do desejo, sem tréguas e álibis. Algumas vezes se confunde, em outras se machuca, em outras ainda repete velhos clichês. Mas em todos os momentos há o compromisso do gesto que não se quer obediente e por isso mesmo protegido da morte. Daí a veia criativa que a distingue. Camila se joga na vida com presteza e sua sabedoria está em experimentar-se falível e diferente a cada instante. Camila está em constante “crise” de identidade e isto não a torna menos capaz, apenas um pouco mais dilacerada.

Parece que a experiência que a personagem faz da e com a linguagem leva a um destino muito diferente do que comumente admitimos. Aqui a função da linguagem é menos de oferecer uma proteção ao vazio do que presentificá-lo, fazendo das vivências e afetos que o reconhecem algo positivo. Assim, este encontro expõe a nudez do sujeito e o confronta com as palpitações do seu modo de existir, sejam elas suportáveis ou insuportáveis. Em boa parte do filme Camila aparece nua, mas isso apenas figura suas opções e enfrentamentos (além de nos indicar nossa própria nudez). Em algum momento parece que nós é que estamos nus diante dela...

Mas é isso mesmo que o trabalho de Murilo traz com força! Ele não expõe apenas seu personagem. Ele invade nosso espaço com obscenidades, loucuras, risos, pelos pubianos, sexo virtual no limite de um sintoma neurótico, olhares encharcados de ódio e tesão, e palavras, palavras, muitas palavras gravadas na tela, como se fosse necessário gruda-las em nosso olhar (para que possamos ouvir com os olhos!). Bem assessorado, reconheçamos, pelas inteligentes poéticas falas de Viviane Mosé, pela interpretação de Leandra Leal (magnífica, pela entrega ao clima do personagem e pela capacidade de encantar e seduzir mesmo nos momentos, digamos, menos suaves, tornando sempre crível e digna uma experiência que facilmente se vê reduzida ao ridículo, numa apreensão mais conservadora) e por um ótimo roteiro. A música também é muito interessante.

Falar mais sobre esse portentoso filme seria esvaziar seu impacto (se isso é possível). De todo modo, “Nome Próprio” é uma escritura cinematográfica da melhor qualidade. Merece muitas semanas de vida nas salas de cinema.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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