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“NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA” de Reinaldo Pinheiro

Nossa vida não cabe num Opala de Reinaldo Pinheiro. Irreverência e humor cítrico para retratar nossa miséria cotidiana.

Foto: divulgação

Instigante reflexão sobre as práticas humanas e seus efeitos

Filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA de Reinaldo Pinheiro

• Numa das mais significativas cenas deste (primeiro) trabalho de Reinaldo Pinheiro dois irmãos conversam. Um deles pergunta sobre o que o outro pensa do futuro. Ao que este responde “Ih, lá vem ele com idéia de viado...”. Este diálogo se dá entre perdedores, pertencentes a uma família de perdedores, condenados e identificados ao lugar (prática) de ladrões. Mais do que isso, este diálogo expressa o grau de brutalização a que se pode chegar. No prolongamento dele ouvimos, não sem experimentar um amargo riso, a confirmação do universo a que pertencem e do qual sequer imaginam sair.

Assim é “Nossa vida não cabe num Opala”: miséria humana exposta em tons vivos, com tipos marginalizados e violentos até mesmo quando pretendem encontrar um pouco de afetuosidade, cidade nua e crua habitável apenas pela positividade da sarjeta. Contudo, para retratar essas vidas à beira do fosso, a adaptação da história de Mario Bortolotto opta pela irreverência na caracterização dos personagens, pelo realismo para retratar a solidão insuportável, pelo cruzamento insólito das histórias. Poder, sexo, dinheiro, sonhos e ideais, tudo parece vir de um pesadelo que o espaço urbano produz em cada gesto de sofrimento e desespero.

Antes de qualquer coisa, Monk, Lupa, Magali e Slide são filhos que herdam do pai após seu falecimento uma dívida que não sabem como pagar, ou até não podem pagar, de modo algum. Como ladrões de carros (especialmente Opalas) têm suas vidas reduzidas a uma obediência cega às normas impostas pelo credor de seu pai, gangster frio que se compraz em ameaçá-los ao mesmo tempo em que assedia a bela irmã, Magali, única a buscar um destino diferente, mas também impotente para enfrentar “seu destino”. Todos querem acertar as contas com o pai morto (aí, alguns momentos tocantes, como metáfora sobre o luto e o que resta para cada um após a perda), mas não sabem como escapar da roda em que estão girando, capturados em suas próprias mediocridades. Cenário sombrio que sugere uma submissão consentida, não obstante os rompantes de reação e algumas bravatas.

Mas este universo bizarro e empobrecido não se extingue aí. Há também outros personagens igualmente merecedores do riso macabro a que somos conduzidos a maior parte do tempo. Um deles é uma mulher hilariante de tão patética em sua repetição mecânica dos jogos eróticos que organizam sua vida. Ao final, como todos os personagens, ela pede um pouco de afeto para suportar a vida e disponibilidade para compartilhar os infortúnios, tanto quanto as pequenas mentiras que sustentam o dia a dia.

Em todos os aspectos o filme funciona como uma espécie de tapa (às vezes sem luva de pelica) no rosto do espectador, parecendo sempre querer lembrar que o mal é onipresente, inescapável, principalmente quando certos pactos da vida social são rompidos, ou sequer possuem existência real. No limite, fica a questão de saber que modos de exercício de poder são necessários para inventar vidas que não se reduzam à miséria e brutalidade.

As interpretações estão todas muito boas, no tom adequado ao aspecto “pauleira” das histórias. Destaque para Ana Luíza Mendonça (a mulher sedutora e hilária), Leonardo Medeiros e Milhem Cortaz (dois dos irmãos ladrões). Há uma cena absolutamente engraçada com ninguém menos que Dercy Gonçalves (na verdade sua última aparição nas telas) que nos faz sentir mais saudades. O roteiro e direção primam por um estilo que segue de perto a maneira dos personagens viverem suas questões e lampejos de humanidade. Neste sentido, respeita as histórias e evita o preconceito. Assim, não há nenhuma pretensão a dar lições de moral. A trilha sonora bem o ritmo. Então, viva as afetações que o filme propõe. E divirta-se, se puder.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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