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TEATRO - RIO DE JANEIRO

O Idiota – Primeiro dia

O Idiota – Primeiro dia

Foto: Ana Cecília Brignol

Roteiro de Teatro Rio de Janeiro

Por Ney Motta

O Idiota – Primeiro dia

05 de agosto a 25 de setembro de 2011 - Santa Teresa

Entre os anos de 1867 e 1868, durante quatro meses, Fiódor Dostoièvski, em sua temporada na cidade italiana de Florença, escreve o romance O Idiota. Desconcertante confronto de um humanista doentio com a realidade amesquinhada da vida. O confronto entre o ideal e o real seguiu do modelo cervantino de Don Quixote e foi publicada em 1869.

A história relata a trajetória do príncipe Míchkin, de 27 anos, que retorna a Petesburgo, após permanecer vários anos em um sanatório na Suíça para tratar da sua epilepsia. No desenrolar da trama, o indivíduo superior, poderoso e supostamente apto para comandar seus servos acaba sendo, para os demais - uma sociedade corrompida e corrupta - um idiota, um inadaptado. Os melhores sentimentos de Michkin são compreendidos como patologia, doença. A inocência e a compaixão sem limites do rei vai se chocar com o desregramento mundano de Ródjin e a beleza de Nastácia Filíppovna. Sua bondade e o impacto da sua sinceridade revela de forma trágica como em um mundo obcecado por dinheiro, poder e conquistas, o sanatório acaba sendo o único lugar para um santo, um inocente que ainda acredita na bondade e na solidariedade humana.

“Visto que o mundo contém todo o tipo de espíritos entre o bem e o mal, e, se num extremo pode-se encontrar pessoas abomináveis, infames, corruptas e mais uma quantidade de adjetivos que caracterizam a perversidade, então poderemos ter a certeza de encontrar o príncipe Míchkin sentado no trono no extremo oposto a esta perversidade. Tal como o autor do livro, Míchkin é um doente que sofre de epilepsia, mas não é com certeza por padecer desta condição, o motivo que o fez viver completamente privado de poder racional; o seu apurado senso comum é que o dispensa de necessitar dessa racionalidade que lhe está em falta para poder fazer juízos de valor.” (Fábio Ferreira).

Autor: Fiódor Dostoiévski | Dramaturgia: Oscar Saraiva | Direção: Fábio Ferreira | Elenco: Bruna Brignol, João Lucas Romero, Natacha Gaspar, Pedro Emanuel, Sergio Santoian e Yasmin Garcez | Cenário: Suzana Queiroga.

Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas. (60 pessoas)
Rua Murtinho Nobre 169, Santa Teresa (RJ). Tel. 2215-0621
Horários: sexta a domingo, às 19h
Ingresso: R$ 16,00 | Duração: 90 minutos
Classificação: 14 anos | Gênero: Drama
Temporada: 5 de agosto a 25 de setembro de 2011

Sobre o projeto

"Uma das características mais importantes do teatro russo, o foco no ser humano e suas questões, foi apresentada em 2006 durante o festival Rio Cena Contemporânea numa montagem do diretor russo Kama Ginkas, baseado em um micro-trecho do célebre romance Crime e Castigo, de Dostoievski; o espetáculo KI do Crime, uma produção do Teatro de Jovens Espectadores de Moscou, a peça contava a história de Katerina Ivanovna (o K.I. do título), personagem secundária do clássico de Dostoievski, que se vê perdida após a morte do marido. A história acontecia durante o jantar fúnebre do marido de Katerina, que morreu bêbado atropelado por uma carroça. A plateia assistia ao desespero desta mulher, que depois da perda, não tinha para onde ir e nem em quem se apoiar e, além de tudo, precisava tomar conta dos três filhos. Outro fato também deixava a personagem perturbada: em busca de dinheiro, assim, ela vendeu sua filha adotiva, Sônia, para a prostituição. O diretor colocava o espectador no papel de interlocutor de Katerina, que pronuncia um monólogo febril e confuso. O público ficava próximo da desgraça alheia sem poder ajudar, fato que o torna impotente.

Antes, em 2004, eu já havia me iniciado no confronto com a obra do autor russo com a montagem de Krotkaia, uma doce criatura, com três atores, incluindo o parceiro de sempre, Oscar Saraiva, com o qual montei inúmeras peças. Mas a experiência e contato com Kama Ginkas foi crucial para entender a força de pequenos trechos da obra de Dostoièvski, e sua capacidade de revelar-se como todo mesmo a partir de pequenas partes secundárias de seus romances.

Agora em 2011, confronto-me com O Idiota, que é um libelo anti-social e existencial, por excelência. A referência de Ginkas de KI de Crime não sai da cabeça, assim como trabalhos de diretores como Franz Castorff, o lituano Eimuntas Nekrosius e o jovem Vincent Macaigne.

Com o apoio da renovada parceria com o Oscar Saraiva, na dramaturgia, O Idiota parte para uma encenação que privilegia a primeira parte do romance de Dostoiévski e se ergue sobre uma partitura física forte, buscando sempre a ocupação de um espaço cênico não convencional. Assim, seis jovens atores (Bruna Brignol, João Lucas Romero, Natacha Gaspar, Pedro Emanuel, Sergio Santoian e Yasmin Garcez) que têm afinidade de companhia teatral, pois trabalham juntos há algum tempo, somada a uma concepção clara de cena, criam um espetáculo em forma de exposição cênica, podendo o público circular por espaços como salas, quartos, corredores e banheiros, para acompanhar o desenrolar de fragmentos do romance.

O Rio de Janeiro tem a sintonia perfeita para tratar o tema dostoièvskiano de forma próxima, contundente e constrangedora. A cidade que guarda de forma decadente, sinais aristocráticos que fizeram sua história como corte e capital federal do país, tem uma hipertrofia social e uma frivolidade no trato interpessoal que fará das tramas do Príncipe Michkin, Rogójin, Nastássia Filíppovna, Ptítsin, Daria e Lisaveta um rol de circunstâncias casuais e identificáveis." (Fábio Ferreira, diretor e idealizador do projeto).