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“O CASAMENTO DE RACHEL” de Jonathan Demme

O CASAMENTO DE RACHEL

Foto: divulgação

Jeito de acolher os traços de muitas tribos

Filme

“O CASAMENTO DE RACHEL” de Jonathan Demme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• É certo que o argumento e o enredo deste elegante trabalho de Jonathan Demme não nos impressionam muito. A bem dizer, somos facilmente tomados por uma sensação de “Déjà vu” por conta das cenas iniciais que mostram a bela Kym (Anne Hathaway) deixando temporariamente uma casa de reclusão (qualquer que seja) e adentrando o universo familiar, repleto de gostos e cheiros carregados, embora inevitáveis (e até desejados). A sensação continua nas tomadas que mostram o encontro de Kym com a casa e a irmã, com quem mantém uma relação de amor/ódio intensa, calcada nas rivalidades que deixam entrever mais a admiração do que mágoas. Contudo, aos poucos somos chamados, em meio a essas obviedades, para um universo que arde de maneira diferente e apresenta por isso mesmo personagens que se situam descentrados por relação às expectativas das normas estabelecidas para casamentos e conflitos familiares.

Isto é possível em grande parte pelo modo como os personagens passeiam pela casa e pelos ditos (previsíveis/imprevisíveis) e pelos não ditos (insuportáveis, no limite do horror), seja a partir do impacto que o retorno de Kym provoca, seja pelo fato de que nesta festa de casamento é tolerada a presença de muitas gentes, com gestos e musicalidades singulares. Assim, prestando um pouco mais de atenção, podemos observar que ao lado dos personagens principais há outro tão importante quanto, mas com uma visibilidade toda especial: as várias cadeias de laços que se formam, um pouco ao sabor do acaso, um pouco pelas circunstâncias que a festa impõe (na medida que reúne famílias diferentes e convidados que não se parecem com ninguém, embora tenham de cada noivo muitas histórias para contar). O foco nas tristezas de Kym e sua família, no enfrentamento de ausências dolorosas e na busca de encontrar um ponto de estabilidade a partir das exigências provocadas pela sua eletricidade “desencapada” , não ocupa em demasia o filme e com isto a festa em si, como congraçamento de modos de viver e afirmar as diferenças se põe como o principal fio condutor.

Coerente com isso, direção e roteiro fazem uma dobradinha azeitada, escapando a maior parte das vezes dos lugares comuns. Para isso, muita câmera na mão, enquadramentos e planos oblíquos, surpreendendo afetos e pulsações menos comportadas e propondo ao espectador um estar menos ordenados nas situações. Desta maneira fica mais fácil acompanhar as loucuras de Kym, sua família e dos convidados. Parece mesmo que Demme ouviu, gostou e adotou aquela velha idéia de Caetano: de perto ninguém é normal... Com efeito, normalidade é tudo o que não vamos encontrar neste casamento. Felizmente!

As atuações são boas, no ponto exato da proposta. Anne Hathaway (ainda mais linda de cabelo curto!) faz um trabalho merecedor de elogios sinceros. Sua composição da irreverente e assumida doidona que mais do que tudo busca o perdão real dos seus familiares por uma severa culpa que carrega e que, ao mesmo tempo, é um mar de carinho e delicadeza é de grande gabarito. Rosemarie De witt, a Rachel, também faz um bom trabalho. Temos ainda Debra Winger (musa que andava sumida) que encarna de maneira simples e delicada a mãe Abby.

Esse filme merece ser visto e apreciado. As cenas finais são muito bonitas e dizem com clareza a intenção de reunir de maneira acolhedora as diversas diferenças. Com muita música e ângulos inusitados. Não deixa de ser entretenimento. Mas com aquela pitada de classe que contempla a sensibilidade e o gosto pela arte.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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