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“O CURIOSO CASO DE BENJAMIM BUTTON” de David Fincher

O CURIOSO CASO DE BENJAMIM BUTTON
de David Fincher

Foto: divulgação

Sensível abordagem de fábula sobre a irreversibilidade do tempo

Filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• A partir do conto homônimo de F. Scott Fitzgerald, o último trabalho de David Fincher busca traduzir toda a encantadora e estranha atmosfera relacionada aos percalços de um homem que enfrenta a temporalidade e a finitude que marcam o humano numa inversão simétrica: nasce velho, morre bebê e alcança na meia idade a experiência da juventude. Ao mesmo tempo, discute os efeitos que um destino como esse trazem para as existências que se fazem próximas, enfocando especialmente a paixão entre Button e Daysi, menina/mulher que, seguindo a trajetória temporal comumente vivida, testemunha e acolhe o percurso de vida/morte de seu amado, não sem dores e perdas.

De certo modo, há uma ironia a perpassar a estória e que o filme capta em filigrana: a inadequação do humano em relação ao tempo e a si mesmo como ser temporal, incapaz de dominar e/ou controlar seu escoar, se deparando com impossibilidades e diferenças que não se conciliam jamais. Tragicomédia quotidiana, cuja crueldade apreendemos nos encontros/desencontros que obrigam a inventar sentidos para suportar os inevitáveis vazios.

Há também o entrelaçamento de vidas e valores que tornam o tempo uma experiência não apenas dependente da cronologia, mas próximo e produzido nas ações e afetos mundanos. O acolhimento da diferença (mesmo quando esta adquire contornos assustadores), a insistência e aposta na vida (mesmo nos momentos em que esta não parece ter qualquer sentido e/ou explicação), a opção pelo amor e a ousadia na escolha pela aventura são aqui sinônimos de grandeza e arrojo na arte de viver. Qualquer que seja o ”tempo” em que existam.

David fincher, auxiliado por Eric Roth e Robin Swicard apresenta tudo isso sem rebuscamentos ou preciosismos. Roteiro e direção se afinam no projeto de contar a trajetória de Benjamim Button – desde a rejeição paterna inicial até o último suspiro nos braços daquela que amou mais profundamente – deixando que espectador se inclua nos vários momentos em que o personagem solicita para si maior compreensão, numa espécie de comunhão onde se aproximar da estranheza e fascínio da vida de um implica desnaturalizar as certezas e verdades mais admitidas da experiência do outro. De tal maneira que até mesmo as angústias de Button e (no momento mais forte do filme) de sua amada Daysi podem ser lidas ao mesmo tempo com as inquietações que são próprias à estória e o encantamento pelos destinos da trama.

Esses e outros efeitos interessantes são resultado da ótima fotografia (Claudio Miranda) e da direção de arte (Kelly Curley e Tom Rets), ambas permitindo uma tonalidade específica e uma reconstituição cuidadosa dos muitos afetos/cenários em pauta. Sem contar com a delicada partitura de Alexandre Desplat. A atuação de Brad Pitt (Benjamim) é convincente e comove em muitos momentos, assim como Cate Blanchet (Daysi) que trabalha com a categoria de sempre. As presenças de Julia Ormond (Caroline) e Taraji Henson (Queenie) também estão ótimas.

“The curious case of Benjamim Button” recebeu muitas indicações ao Oscar e só isso aguça a curiosidade para vê-lo. Mas o fato é que se trata de um filme que faz por merecer elogios, independente deste sucesso. Quanto mais não seja pela qualidade das atuações e pela direção segura e sempre atenta aos detalhes de cada movimento deste herói às avessas que nos brinda com muitas perguntas, lá onde nos acostumamos a só encontrar (e esperar!) respostas.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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