Filmes Comentados

FILME

"O Escritor fantasma" de Roman Polanski

O Escritor fantasma

Foto: divulgação

Trhiller elegante e crítico dos podres poderes

Comentário

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria. Em 13/06/ 2010

“O Escritor fantasma” de Roman Polanski

Uma das chamadas para “The ghost writer” faz apelo ao aspecto polêmico do diretor Roman Polanski. Bem, não resta dúvida de que se tratando deste artista sempre paira no ar uma aura um tanto arrepiante, seja por conta de seus filmes, marcados por uma visão um tanto cruel das relações - o que permite perceber com maior clareza a crueldade nas relações – seja por conta dos fatos ligados à sua vida “privada” – quem não sabe das acusações de sedução de menores pelas quais ainda responde a processos jurídicos? Seja como for, a atmosfera deste último trabalho, voltado para uma discussão que ultrapassa à mera questão das angústias e desconcertos de quem se propõe a funcionar como fala viva de outro, não foge à regra do modo de pensar as “maldades” que o humano produz: diante do horror provocado pelas descobertas das inúmeras falcatruas que habitam as cenas dos jogos de poder (neste caso em altas esferas da política internacional), restam sempre um riso (bem) amargo e a constatação da força macabra que insiste em afirmar-se, lá onde poderíamos esperar e desejar um pouco de hospitalidade e nobreza ética. O melhor de tudo é que Polanski não faz disso um recurso para lições de moral, optando (como sempre) em mostrar a fraqueza e a hipocrisia que tecem redes tão aterrorizantes quanto inescapáveis. O terror está sempre muito próximo e onde menos se espera.

A trama, baseada no romance de Robert Harris, situa um político de renome internacional, Adam Lang (Pierce Brosnam), um escritor fantasma também de renome (Ewan Mcgregor), a perspectiva de produzir um livro sobre a vida deste político, voltado para fazer sucesso na grande mídia, e os muitos mistérios que rondam essa história. A começar pela morte do “ghost” anterior e pela suspeita de que Lang transita pelas vias de organizações responsáveis pelo seqüestro e tortura de prisioneiros políticos, numa intrincada rede comandada pela CIA e patrocinada pela indústria bélica. Pouco a pouco, nosso quase herói descobre que entrou numa furada, não obstante os muitos milhares de dólares que lhe são prometidos pelo trabalho. Trabalho já iniciado por alguém que morreu em circunstâncias estranhas. Assim, levado a lugares inóspitos e que suscitam um clima de extrema solidão e abandono, presa involuntária de interesses que vão muito além de sua compreensão, o escritor se descobre trabalhando para um criminoso de guerra e vê sua vida por um fio. Até o final, que surpreende pela dureza, ele estará seguindo as trilhas que abrem ao mesmo tempo novos achados e a possibilidade de escapar vivo. Fantasmagórico, não?

Na cabe adentrar mais na descrição das situações sob pena de estragar a fruição do suspense. Basta dizer que a direção não apela em nenhum momento para o melodrama nem para as facilidades do suspense barato. Não há sustos gratuitos, mas o compromisso em acompanhar o terror permanente de todos os que estão envolvidos na trama, na medida mesmo em que todos têm algo a ocultar de cada um e estão profundamente ameaçados ainda que diferentes maneiras e com diferentes cacifes políticos. A morte espreita o tempo todo e é essa espreita que filme traduz magnificamente através de enquadramentos que destacam a frieza dos gestos e o pavor sempre dissimulado. Os planos longos da ilha e da travessia para se chegar a ela (onde as ações principais se passam) são precisos para retratar caminhos que invariavelmente levam ao horror. Do mesmo modo, os planos que flagram os ódios que circulam sem serem ditos e o ritmo frenético, marcado por diálogos ambíguos, captam em todos os níveis a sordidez das questões. Neste sentido a ótima trilha musical de Alexandre Desplat funciona como mais um importante ingrediente estético. Excelente.

O elenco está muito bem e a fotografia tem grande mérito de manter a atmosfera de tensão e de proximidade com o macabro.

Então, mais uma vez encontramos a marca, se não da polêmica ao menos da competência cinematográfica de Polanski, capaz de compor imagens que dizem com intensidade as complexidades (e cruezas) das relações humanas. Pessimista? Talvez, mas atual e inteligente.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : Comentar

Orkut