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FILME

“O LEITOR” de Stephen Daldry

“O LEITOR” de Stephen Daldry

Foto: Kate Winslet

Reflexão sobre a busca para testemunhar feridas incuráveis.

Filme

No elenco: Kate Winslet (Hanna Schmitz) e Ralph Fiennes (Michael Berg)

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

A estória filmada em “O Leitor”, adaptação do romance homônimo de Bernhard Schiller, é sem dúvida bastante densa e complexa. Falar apenas das peculiaridades da relação entre um adolescente e uma mulher (bem) mais velha, com as conseqüentes surpresas decorridas do envolvimento dessa mulher com o holocausto seria reducionista. Há também, num desdobramento bem próximo da discussão sobre as responsabilidades éticas envolvidas no julgamento dos atos nazistas, a questão da formação jurídica, do que pode e deve ser aceito como verdade e dos atos que produzem alguém como culpado de algum crime. Não menos importante é a questão de saber sobre os efeitos funestos produzidos pelo confinamento em campos concentracionários.

Contudo, desde a consideração de que um elemento primordial na trama é justamente o segredo, revelado a Michael Berg sobre sua (ex) amante e que ambos passam a partilhar numa situação em que a revelação dele tem o poder de mudar o rumo de um julgamento por crimes de guerra, é possível ler esse trabalho de Stephen Daldry (que filmou o elogiadíssimo “As Horas”) como um questionamento sobre a função da testemunha. E não apenas no que tange ao dito julgamento (no qual Berg reencontra sua iniciadora sexual e primeiro amor de sua vida no banco dos réus). Também se diz do valor do ato de testemunhar os sofrimentos vividos pelos judeus, da impotência do sistema jurídico, dos afetos que clamam por reconhecimento numa relação fraternal (como a de Berg com sua filha). Daí ser possível dizer que Michael Berg é um advogado sem testemunha.

Sem testemunha para o ardor dos “inícios” apaixonados, sem testemunha para a dor que vive por jamais conseguir esquecer uma mulher que acabou se revelando pouco mais do que uma simples empregada analfabeta, que aderiu ao nazismo e aos seus métodos menos por convicção ideológica do que por seu pertencimento à grande massa de incautos e ignorantes. Sem testemunha também para seu ato de omissão – que significou uma extrema fidelidade a esta mulher – no julgamento de Hannah, sem testemunha para o saber (traumático?) de ter sido, tal qual os prisioneiros da SS, objeto de uma certa dominação (ele pelo fascínio do apaixonamento) imposta por Hannah. No limite, pergunta-se qual é a linha que separa a perversão – da qual os prisioneiros foram objeto – da virulência apaixonada representada pelo fato de que Berg é também cuidado por Hannah, retribuindo com um ato que contempla sua amada de uma maneira decisiva: a leitura de textos, romances clássicos e outros que encantam e emocionam, emprestando à sua vida um pouco de humanidade, de qualquer modo a humanidade possível para alguém cuja dureza e brutalidade estão estampadas em cada gesto, em cada expressão facial e até mesmo na nudez do corpo, não obstante a beleza das formas.

O filme mostra com maestria a trajetória tortuosa de Michael Berg, sem jamais conseguir se desligar do passado, tão organicamente preso quanto ideologicamente distante. Fenda que não se extingue nunca. Como estudante encontra um professor que lhe diz que mais do que sentir e pensar o que verdadeiramente importa para os homens são os atos. Tudo isso é uma bela metáfora para a discussão sobre a responsabilidade histórica pelo nazismo, mas também pelos acontecimentos de vida que não sabemos dominar, cujas conseqüências não são previsíveis, mas que nos implicam necessariamente. O trabalho de David Hare (concorrente ao Oscar de roteiro adaptado) merece elogios. Além dos diálogos bem articulados há precisão na narrativa: em nenhum momento o filme peca por inverossimilhança, nem deixa o espectador advinhar o final da trama. A direção pretende encontrar o trágico, privilegiando mostrar a lado humano (e até patético) dos personagens, especialmente a sina do advogado. Um dos aspectos mais interessantes de seu trabalho diz respeito aos cortes temporais que não se restringem ao elemento cronológico, mas buscam desnudar as afetações diversas. Por isso podemos observar além dos cortes de cena (que incluem as ordenações do tempo que passa), cortes numa mesma cena, destacando uma temporalidade que se faz pela memória que se presentifica, por uma vivência insuportável que insiste sem remissões, pelo embaralhamento dos sentidos e significados que se impõe, dados os muitos sofrimentos e pedidos que estão em jogo. A fotografia tem o mérito de fixar o tom lúgubre que caracteriza a trama, com contrastes belíssimos no acompanhamento das paixões dos personagens. Direção e fotografia também concorrem ao Oscar.

O elenco está excelente e é um fator de encantamento do filme. Kate Winslet (com justiça indicada ao Oscar, mas que mal pergunte porque não por “Foi apenas um sonho”?) encarna com invejável categoria a dura e (também) sofrida Hannah, bela e simples mulher marcada pela ignorância e identificação ao estilo policialesco e brutal da SS, mas com momentos de grande ternura e carinho por Berg e pela literatura. David Kross (o jovem M. Berg) trabalha com segurança e sutileza as nuances juvenis por relação ao sexo, e depois na maturidade forçada pela crueza dos fatos. Ralph Fiennes, no papel do Berg mais velho, agoniado pelas lembranças e exigências que ainda se faz por relação a Hannah e aos deveres familiares, mostra sua já conhecida capacidade de viver com a intensidade adequada afetações doloridas, no limite da insanidade. Não há qualquer superficialidade e gratuidade nos seus gestos (aliás, em nenhum dos intérpretes). Também marcam (ótima) presença Bruno Ganz e Lena Olin (ele como o professor de direito, ela como uma das sobreviventes do holocausto que depõe no tribunal e também como a filha numa das últimas cenas).

Enfim, com um trilha musical igualmente bonita, “O Leitor” seduz pelas imagens fortes e pela capacidade de situar difíceis questões com clareza e sem simplifcações. Nem mesmo o desfecho, um tanto forçado, retira seu mérito.

Merece ser apreciado. É cinema de alta qualidade. Independente de qualquer premiação.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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