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COMENTÁRIOS SOBRE FILMES

“O LUTADOR” de Darren Aronofsky

“O LUTADOR” de Darren Aronofsky

Foto: divulgação

Nos sombrios bastidores do espetáculo

Filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Neste trabalho que aborda de um modo ao mesmo tempo amargo e irônico as argúrias de um famoso e admirado lutador - verdadeiro ídolo para seguidas gerações -, o mais interessante parece ser a provocação em torno de uma discussão (que se encontra mais ao fundo) sobre a sociedade que produz compulsivamente espetáculos e, com eficácia e crueldade, aprisiona de maneira sistemática os indivíduos, sobretudo aqueles incumbidos de produzir/fazer o show. Aí o que se encontra são os [assim chamados] “losers”, isto é, aqueles que mesmo ocupando um lugar de destaque neste palco – e talvez por isso mesmo – sucumbem aos imperativos perversos que constituem o “outro lado” da fama, sucesso e poder: solidão insistente e empobrecedora, flagelação do corpo via drogas que o tornam “potente” o bastante para performances cada vez mais estridentes, desmantelamento das possibilidades reais de laços mais duradouros, exceto aqueles restritos ao meio no qual o indivíduo encontra simultaneamente sua glória e ruína. Assim, este filme é sobre os perdedores, e Randy “The Ram” Robinson, ás da luta livre nos anos 80, é um deles.

O acompanhamento da decadência e do horror a ela associado passa estrategicamente pela visita a outro espetáculo: o que habita as casas de sexo e erotismo (?!), dessa vez apresentando mulheres com seus corpos expostos e supostamente provocativos. Neste universo surge a figura de Cassidy, com quem Randy tenta manter algum contato, ainda que limitado (pelas regras do comércio) e esporádico. O encontro desses dois solitários, representantes de universos distintos, mas próximos no que tange aos apelos feitos aos corpos e aos conseqüentes sofrimentos, será um importante fio condutor. Com ele poderemos perceber seus esforços para suportar e dar sentido a uma existência dura e sem qualquer glamour. Pior para Randy que com o corpo em frangalhos e o coração à beira do colapso tenta se reaproximar da filha, num ambiente de mágoas e ódios tão legítimos quanto brutais. O resultado desta outra luta é previsível.

Assim, a perspectiva explorada por Darren Aronofsky implica um trânsito pelo doloroso corredor de sombras avessas às cores deslumbrantes do show, desnudando vidas endurecidas pela árdua tarefa de sustentar o que não é sustentável e suportar o que não é suportável: permanecer objeto das idealizações dos outros e encontrar nisso uma satisfação e um sentido que justifique o alto preço pago. Rigoroso na composição das cenas que caracterizam as inconciliáveis perspectivas que Randy busca constituir (num inteligente contraste de ritmos e cores) e ousado nas deslumbrantes e violentas cenas no ringue, o diretor consegue mostrar a decadência do mito sem apelar para melodramas. Os personagens se emocionam e nos emocionam claro, mas o que se destaca é sua bravura diante da vida, ainda que esta bravura, especialmente no caso do nosso (anti) herói, seja ineficaz e até patética.

É interessante prestar atenção na fotografia que recebe com maestria o sombrio e na câmera “desencontrada” que destaca os afetos, dores e até esperanças, para além das imediatas circunstancias da estória e diálogos mais esclarecedores (alguns excelentes). Os enquadramentos e os planos não se fazem pela linearidade e permitem que o espectador faça seu percurso junto aos personagens, sem ter que suportar didatismos e/ou mensagens moralizadoras.

Evidentemente o filme tem uma direção segura (ajudada por um bom roteiro) e algumas cenas são muito bonitas no modo como respeitam as contradições dos personagens, assim como seus afetos mais insistentes e estranhos. No entanto, o filme ganha muito com a presença de Mickey Rourke (merecidamente indicado ao Oscar), cujo trabalho é de uma honestidade ímpar. Sua composição é de extrema sensibilidade, ao pescar e demonstrar, sem precisar de clichês, toda a fragilidade do ídolo, aumentada pelas exigências que ele mesmo se faz (e das quais não consegue se afastar) para se manter no lugar desejado pelos fãs. Seu ódio ao mundo e a si mesmo em todos os momentos em que se depara com as impossibilidades produzir novos laços e se fazer reconhecer fora do circuito, é mostrado de maneira pungente, mas sem exageros.

Não menos brilhante é o trabalho de Marisa Tomei, na pele de Cassidy. Encarnando a duplicidade Cassidy (mulher de programa) e Pam (mãe de família que cuida do filho e sonha se mudar para um “lugar” outro), Marisa (também concorrente ao Oscar de melhor atriz coadjuvante) contracena lindamente com Mickey. Ambos fazem um dos mais belos momentos do filme (de todo modo o único romântico) trocando suas argúrias, solidarizando-se com os seus destinos e roubando (ainda que por breves instantes) de si mesmos a centelha de carinho e realização amorosa que se negaram a maior parte do tempo. Ao final estão de certo modo juntos, mas já não há para Randy qualquer volta. As últimas cenas são de arrepiar!

Enfim, “O Lutador” é mais um interessante exercício de Darren Aronofsky para caminhar nas trilhas menos dizíveis, mas que constituem inevitavelmente o show nosso de cada dia. Sua luta para pensar (como já fizera em “Réquiem para um Sonho”) a flagelação implicada na busca desenfreada pela euforia e fama e a morte que isso representa encontra aqui mais um desdobramento. E de ótimo nível.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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