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FILMES

“O MISTÉRIO DO SAMBA”
de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda

O MISTÉRIO DO SAMBA” de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda

Foto: divulgação

Magnífica fusão com os sons e poesias do “subúrbio” profundo

Filme

O MISTÉRIO DO SAMBA - Com Marisa Monte e Paulinho da Viola

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• A leitura que parece estar subjacente a este documentário é de que a relação entre a obra de arte e seu autor se faz tão mais potente quanto mais visceral for seu despojamento em buscar, nas experiências cotidianas, o traço de ultrapassamento de si. Isto é válido tanto para a magia das composições quanto para o não menos fascinante “drible” no destino, quando este parece ordenar apenas uma vida banal e sem maiores oportunidades. As pessoas das quais fala o filme e que respiram o samba como condição mesma de sua existência – no caso, velha guarda da Portela, enraizada no eixo suburbano Osvaldo Cruz/Madureira -, se reportam a cenas que não apenas fazem uma importante parte da história sócio-cultural da cidade como também marcam com clareza a capacidade de luta e inventividade para fazer vida algo mais do que uma sucessão de atos obedientes.

Aliás, nunca é demais lembrar: trata-se de um filme sobre pessoas que fazem samba, e não sobre O Samba, tomado como mera abstração. Assim, as histórias, contadas e recontadas, vividas e revividas, construídas e reconstruídas, são matéria prima fundamental para as composições (e que composições!) que, como muito bem afirmou Marisa Monte, fazem da nossa vida algo melhor. Histórias e composições que se entrelaçam com o Rio de Janeiro dos primeiros carnavais, dos velhos gestos malandros, das “casas simples com cadeiras na calçada” (permitam-me essa citação de Vinícius e Chico), e, claro, dos botequins – esse espaço sagrado! - com suas mesas regadas a muitas cervejas e afins, companhias indispensáveis dos artistas. Forjados entre os trens e as quadras, entre amores rasgados e traições lapidares, entre noitadas intermináveis e o duro batente de cada dia, os sambas, resgatados, em sua maior parte, pelo trabalho de Marisa Monte (também de Paulinho da viola), são peças raras, conjugando letras e melodias que falam das coisas do coração e da vida, com simplicidade. .

Assim, o filme se desenrola de maneira a suscitar intensidades, as mais inesperadas, sempre acompanhadas de movimentos corporais expansivos, não fossem as seqüências pontuadas pelos encontros de Marisa e Paulinho, Monarco e Tia Surica e Zeca Pagodinho, entre outros, todos cantando com carinho e alegria. O que é realmente digno de registro é a maneira humilde (com um toque de reverência necessário) com que os diretores conduzem as marcações, os enquadramentos e fixam, no estilo de cada artista, universos singulares. Deste modo, não há psicologia nem sociologia de botequim (ao botequim são reservadas as batucadas, a cervejinha e a feijoada!). Ao contrário, a câmera segue os ângulos que destacam rostos, olhares, pés (sambando ou não), e todo um gestual próprio, cuja graça e leveza são captadas em detalhes que não excedem nem ferem a intimidade que vai se fazendo. .

Junto com isso, magia maior deste encontro tão delicado, os sambas são apresentados pelos seus próprios autores, por vezes se aproximando de acordes esquecidos, por vezes fazendo deles um salto para deliciosas recordações. Por isso, seria injusto dizer que se trata de filme sobre samba. Deve-se considerá-lo um filme-samba, tal a junção que estabelece entre essas duas linguagens, aqui unidas num abraço visceral.

Ao final, percebemos que os diretores tiveram a sabedoria de não querer elucidar ou decifrar os mistérios do samba. Melhor assim. Isto torna este lindo trabalho mais um momento onde a cultura brasileira alcança solidez política e exuberância estética.

Imperdível!

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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