Comentários de filmes

FILME

“O nome dela é Sabine” de Sandrine Bonnaire

“O nome dela é Sabine” de Sandrine Bonnaire

Foto: divulgação

Convocação para um olhar diferenciado sobre os (a)normais

Filme

“O nome dela é Sabine”
de Sandrine Bonnaire

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

O relato sobre a vida de Sabine Bonnaire, feito por sua irmã, a atriz e diretora Sandrine Bonnaire, é tecido com ferro em brasa, sobretudo quando se trata de descrever com imagens cruas, despidas de qualquer glamour e clichês, o modo de ser de uma pessoa de 38 anos com autismo e que passou pelo menos 30 anos de sua vida sem receber tratamento e acolhimento adequados, tendo inclusive passado por uma internação num hospício, com consequências desastrosas. Não se trata de culpabilizar a família (como se tornou comum fazer em alguns segmentos do mundo psi), nem mesmo de atestar a veracidade de um diagnóstico, demonstrando os sinais e sintomas característicos da doença (de acordo com o estilo médico). Distante dos valores produzidos pelos chamados especialistas, “Elle s´apelle Sabine” se devota ao chamado carinhoso para as peculiaridades da vida não só de Sabine, mas também de alguns outros com que ela convive, respeitando a todos e indicando um caminho pelo qual se torna possível receber e conviver com suas estranhezas e alheamentos às normas do nosso cotidiano.

Para fortalecer esse ponto de vista é importante a costura realizada pelo roteiro, alternando imagens atuais, onde Sabine é assistida e acompanhada por cuidadores sempre solícitos a acolher seu jeito (mas sempre rigorosos quando se trata de marcar os limites fundamentais de convivência) e imagens da sua juventude (sim, Sabine aos 38 anos está bastante envelhecida!), quando se mostra uma moça bonita, com um olhar arguto e uma intensidade ainda não esmagada pelos abandonos (involuntários) dos familiares e pelos cinco anos de internação. Ao mesmo tempo, com um fundo negro, uma voz circunspecta narra alguns trechos de sua trajetória, sem grande teor dramático, mas com precisão histórica. Assim, descreve-se ainda melhor os comportamentos bizarros da protagonista (porém repletos de sentido quando ajustamos nossa ótica ao que é específico da vivência autista). Apenas uma vez é convocada uma profissional para dar uma explicação sobre o autismo, e ela o faz com delicadeza, utilizando uma linguagem que contempla qualquer leigo no tema, sem apelar para termos técnicos ou algum outro rebuscamento científico.

O trabalho de Sandrine Bonnaire não se pretende neutro ou mesmo isento de afetações. Não poderia ser diferente. Como ela insiste em dizer, o sofrimento de sua irmã afetou e afeta a todos de sua família. Além disso, em nenhum momento é negado o impacto que pode haver para Sabine e seus companheiros o fato de saberem filmados. Contudo, a força maior do filme é o impacto das imagens da relação de convivência entre Sabine e outras pessoas com dificuldades outras (inclusive um com paralisia cerebral que concede uma simpática entrevista a lado de sua mãe), e da própria Sabine adentrando o mundo dos normais, no comércio, no consumo, etc. Aí, por um curioso efeito especular, vemos o quanto a nossa intolerância e medo produzem para essas pessoas ainda mais solidão e sofrimento. Vemos também o quanto é necessário a construção de espaços de convivência como o freqüentado por Sabine – e que foi construído com auxílio de verbas e influências importantes, inclusive da própria Sandrine. Sem esses espaços (há léguas distantes dos manicômios boçais) e sem pessoas que possam cuidá-las, acompanhando suas vidas sem tutelas, há poucas possibilidades de vida para essas pessoas. Melhor seria dizer que sem um real projeto de saúde mental, essas pessoas estão votadas à morte (só no Rio de Janeiro há um grande número de adultos e crianças autistas ainda sem assistência adequada). Isso o filme deixa absolutamente claro.

Enfim, “O nome dela é Sabine” é um filme que faz pensar sobre modos de existência que nos escapam em muito, mas que podem ter sua dignidade preservada caso possamos acolher e suportar suas (enormes) diferenças.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

Poste um comentário

Navegue por NossaDica

Copyright © 2007 • Nossadica • Todos os direitos reservados • Mapa do siteWebMasterHostDica Serviço de Internet