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“O Segredo dos seus olhos” de Juan José Campanella

“O Segredo dos seus olhos” de Juan José Campanella

Foto: divulgação

Para enternecer olhos, corações e mentes

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“O Segredo dos seus olhos” de Juan José Campanella

Para enternecer olhos, corações e mentes

O impacto em mim causado por esta pequena obra prima de Juan Campanella é difícil descrever. Desde o Fest Rio quando vi pela primeira vez até esse momento, após ter revisto, com algum distanciamento como se diz, permanece para mim algo que excede a palavra, logo ela com a qual tenho que contar para tecer as linhas que fazem o comentário. Recordo-me que ao terminar a sessão só consegui balbuciar algo como: mas que aula de roteiro! Mais do que isso, só as intensidades, que transbordavam... E assim foi que, de tempos em tempos me surpreendia tomado pela expectativa de revê-lo, comentando com amigos cinéfilos, indicando. Eis que no tempo do Carnaval sou informado de sua pré-estréia no circuito e com uma certa crueldade adio um pouco mais o reencontro (até por ter outros comentários na fila, para ser mais justo). Então elegi e programei ansiosamente o dia de ontem. Saboreando o tempo da espera e imaginando poder transitar com maior destreza nos labirintos dos muitos olhares que um cinéfilo tem a vocação de desejar. Bem, como já disse não fui muito adiante. Mesmo assim insisto em comentar, talvez mais com objetivo de compartilhar êxtases do que precisar linguagens, mensagens, e tudo o que faz parte de um comentário de filmes. Só me resta convocar o leitor para seguir a trilha que tentarei forjar. Pode ser?

“El secreto de sus ojos” baseado no romance “La pregunta de sus ojos” de Eduardo Sacheri – segredo e interrogação formam um par e tanto, não? -, enlaça romance (inclusive policial, com pitadas de filme noir), política e até humor. Após ter se aposentado, o ex-funcionário da corte penal Benjamim Espósito se põe a escrever um romance no qual se presentificam muitas reminiscências, algumas delas pedindo resoluções, ao menos resoluções diferentes das que foram dadas até aquele momento. Romance cuja escritura deve conjugar os efeitos de traumáticas experiências que se deram a partir da busca do autor de um crime hediondo, o encontro com Irene Menéndez, sua chefe no departamento em que trabalha com quem vive uma paixão amorosa e, interminável insistência, suas questões sobre as escolhas realizou na vida.

Insatisfeito e angustiado, Espósito procura, procura. Quer escrever o romance de sua vida. Mas para termina-lo terá que revê-la, parte por parte, lembrança por lembrança, sobretudo aquelas que os olhos e somente eles alcançam. Como toda busca a sua traz uma questão: qual é paixão que suporta uma trajetória de vida? Que sentidos possui? Como nomeá-la e com ela conviver sem se deixar aprisionar ou dela escapar? Buscar os sentidos que animam as paixões que marcam a sua história faz de Espósito um herói trágico, sempre encontrando dentro de si mesmo os inimigos e esfinges com quem terá se haver para compreender seu destino. Acontece que este embate é permanente, é a própria paixão buscada e que tal como um segredo se esquiva a cada momento, tanto quanto se revela nas inebriantes armadilhas do desejo.

Assim, rever os restos e insistências produz uma temporalidade outra, muito diferente daquela que registramos no dia a dia que passa. Este tempo se escreve com atos transformadores, capazes de inaugurarem falas e olhares nunca dados, sempre a se realizar. Por isso não é exagerado pensar que Campanella nos chama a habitar este lugar vazio, cuja proximidade nos é motivo de gozo e horror, mas sem o qual simplesmente não existimos. Aí surpreendemos a força do olhar, sua escrita e também o fogo da palavra, seus olhos. Olhos que falam, bocas que olham. Corpos lançados à paixão, suave veneno, ardência.

Interessante constatar que o ritmo lento do filme é coerente com a proposta de captar (nunca capturar, atenção!) a sabedoria dos sentidos e das sensibilidades que o desejo pode inventar. Seja na busca propriamente policial, seja na busca romântica, seja na busca sem nome que move Espósito. Trata-se de respeitar a escritura, mas dessa vez a escritura é a do cinema, com suas pausas, elipses, movimentos de câmera, enquadramentos, travellings, sobreposições, passagens de tempo, etc. Sem esquecer do sonho (que o cinema também é) e da lógica inconsciente que o perpassa do início ao fim. Cada cena tem a generosidade de nunca se esgotar nas descrições mais imediatas do encaminhamento da trama, deixando em aberto sentidos (e olhares). Ao mesmo tempo, a costura dos vários aspectos da trama e dos tempos concretos nos quais ela se dá (ah, esse roteiro de mestre!) permite que as viradas aconteçam com naturalidade, nos convocando ainda mais a participar da estória. Que é também a nossa, com as dúvidas, ilusões, equívocos, fascínios, durezas, amores e dores. Uma dor jamais esquecida diz respeito aos fatos que caracterizaram a ditadura Argentina nos anos 70, ainda mais violenta (por incrível que pareça) que a nossa. Aí, mais uma vez, o encaminhamento é preciso ao marcar as conseqüências dramáticas para cada personagem do contato com as podres esferas do poder ditatorial e da justiça.

Dizer que “O segredo dos seus olhos” é um filme lindíssimo é chover no molhado. Já se sabe também que concorre ao Oscar de filme estrangeiro. Há mais de um testemunho de que a cada sessão os aplausos não deixam de espocar, como se estivéssemos ainda no borbulhante clima de um festival. O que mais pode ser destacado? Claro, as interpretações de Ricardo Darin (Espósito), Soledad Villamil (Irene), Guillermo Francella (o hilário funcionário da repartição e amigo de todas as horas de Espósito), ao lado de um elenco excelente. A música serena e melodiosa de Frederico Justid e Emílio Kauderer, a fotografia de Felix Monti.

Apenas mais um dizer, antes de encerrar. Ao longo de todo o filme os olhares são peças fundamentais no encaminhamento da trama. Contudo, a direção de Campanella nos leva exatamente ao que não pode ser capturado pelo olhar, quem sabe intuído, deduzido até, mas nunca percebido em sua imediatidade. De tal maneira que a compreensão das questões que o filme coloca (e que são postas a partir de Espósito e Irene, principalmente) implicam a ausência do ver como condição para alcançar a sabedoria que subjaz na paixão. Outro modo de dizer de nossa cegueira diante dos mistérios do existir. Outro modo de dizer do cinema como modo de operar a invenção de novas verdades, ditos e...olhares.

Imperdível!

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato
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