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"OS DESAFINADOS" de Walter Lima Junior

OS DESAFINADOS de Walter Lima Junior

Foto: divulgação

Poesia e musicalidade no registro de reminiscências que atravessam o tempo

Filme

"OS DESAFINADOS" de Walter Lima Junior

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Respeito e carinho com os detalhes. Assim pode ser lida a proposta de Walter Lima Jr. em seu mais recente trabalho. Detalhes que dizem respeito aos efeitos produzidos pela imersão na história, não para dela se apropriar com explicações que se arrogam domesticar os afetos, mas para faze-la retornar agora com uma intensidade capaz de agenciar novas lembranças e significados. Falar da bossa nova, seu surgimento, as estórias e criações de cada ato, de cada singularidade, implica reconhecer uma época – com tudo o que isto pode significar no campo das múltiplas experiências culturais – e, por isto, estabelecer interlocuções respeitosas entre os diversos “atores” que escreveram com sua vidas as obras nas quais reconhecemos uma de nossas melhores heranças. Os detalhes têm sua importância exatamente aí: o autor/diretor está também incluído nesta época e guarda em todos os momentos a exata noção da importância de assumir isto, sem negar-se ao distanciamento necessário para pensar e propor as questões que pululam como chamas sem expectativa de alívio.

Detalhes dos movimentos de um cineasta que aprende a fazer cinema... fazendo cinema, observando respeitosamente as faces, olhares, movimentos de boca nos dizeres de todo tipo, ainda em outros gestos – imperceptíveis, alguns - que traduzem angústia, dor, medo, paixão desenfreada, alegrias, sensualidades, ódios, além de inventar cenas capazes de exprimir seus ideais políticos. Detalhes dos movimentos de cada instrumento, a minúscula percepção das cordas do baixo, das teclas do piano, do violão, das baquetas ensandecidas no encontro com os pratos no ritmo da bateria, das respirações e pausas nutrientes do processo de compor as canções. Detalhes das feituras dos arranjos pelos seus autores sempre tão apaixonados, das afinações, bem como detalhes do dilaceramento presente em cada escolha, do abandono inevitável de cada ousadia, do perpétuo jogo do acaso a invadir os encontros e seus destinos. Mas não precisamos pensar que as coisas se esgotam e reduzem aí. Não há nenhum fetichismo pelos detalhes, mas o artifício estético de fazer uma memória carnal, afetos à flor da pele, peles que se fazem e refazem ao som das canções e dos sonhos que as acompanham.

Além do mais, trata-se de uma época de muita riqueza. Entre os anos 60 e 70 quatro músicos e um cineasta compartilham (eis um verbo conjugado com ardor no dia a dia de cada personagem, sem a necessidade dos discursos politicamente corretos de hoje) suas expectativas e encontros/desencontros, conflitos e, vez por outra, amores. Época onde a experimentação balizava os horizontes e inflamava os corpos. Nesta trilha, surge uma cantora que os acolhe e incendeia, numa incendiada nova York para onde todos rumaram, aventureiros, poetas, loucos. Há quem fique à distância, há quem retorne com alguma urgência, porém não há quem fique imune aos “acordes” que insistem em clamar pela inventividade. Às vezes ao preço de dores difíceis de suportar. Época também de ditadura em toda a América do Sul, de mortes suspeitas e jamais esclarecidas, de torturas e censuras tão imbecis quanto violentas. Isto também terá o seu papel na trama. Esta é também outra herança.

De todo modo, a atmosfera é de música e dança. Todo o tempo. Isso significa que a “bossa nova” não comparece com algo exterior, mero artefato, espécie de fundo musical pasteurizado a acompanhar os conteúdos e formas que as vidas retratadas realizam. Não, a música (assim como o cinema) está na origem das afetações, organismo insaciável que exige ser contemplado em suas necessidades. Por isso, a música nos invade, até mesmo quando os silêncios, com que Walter Lima pontua tão belamente o ponto limite onde as reminiscências apresentam o indizível, se fazem potentes e perduram.

“Os Desafinados” é um filme emotivo sem ser piegas, critico sem ser ressentido, nostálgico sem ser melancólico. Fazer isso é tarefa para poucos. Se ainda acrescentarmos a fotografia focada nos tons fortes e nos contrastes, no limite das paixões suscitadas, o roteiro ágil, sem exageros de diálogos e referências históricas e a inspiradíssima interpretação de todo elenco (destacando Ângelo Paes Leme, Cláudia Abreu, Selton Mello e Rodrigo Santoro), temos uma obra de qualidade indiscutível, à altura das melhores de Walter. Que se dá ao luxo de desprezar uma ou outra verossimilhança, fiel à concepção de uma memória que pode ser também inventiva, não meramente reprodutiva.

O filme encanta e seduz. Como sugere a última cena, somos todos rebentos dessa história. Parece que Walter Lima Jr. nos convoca a ser testemunhas desta história e, assim, de nós mesmos.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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