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COMENTÁRIOS SOBRE FILMES

“Palavra (En) Cantada” de Helena Solberg

“Palavra (En) Cantada”

Foto: divulgação

Partitura intensa para dizer dos múltiplos usos e artifícios da palavra

Luiz Felipe Nogueira de Faria

• As questões apresentadas e discutidas em “Palavra encantada”, novo documentário de Helena Solberg (uma das preciosidades do último Fest Rio) remontam de certo modo ao universo da criação e dos efeitos de afetação que se fazem no encontro da palavra e da música, destacando a especificidade da experiência brasileira. Ao mesmo tempo há um gesto que desnuda o jogo e o movimento de invenção, entre palavra e música, capaz de tornar a primeira mais palatável e conhecida para as grandes massas.

Com isto, música e palavra adquirem a possibilidade de permutar suas identidades mais tradicionais, posto que se abrem uma e outra para suas outras “faces”: a palavra afirma sua musicalidade, desenvolvida no trabalho dos poetas e compositores e a música adquire o dom do sentido na medida em que diz dos afetos mais viscerais e recebe o poema fazendo-o vibrar na carne. Instrumento de transmissão viva da cultura e da história, a palavra é tratada com o carinho que merece. Declamada, cantada ou apenas ritmada, pensada nos seus efeitos sociais e definida como capaz de criar corpos e afetos inesperados, a palavra encontra nas artimanhas do canto seu encanto maior. Aí está a graça da brincadeira proposta: em seu desenrolar, não nos encontramos mais na posição de separar o verso de sua música, a música de sua letra.

Além disso, nos vários depoimentos, todos eles cunhados pelo ardor do conhecimento e da pesquisa, vamos aprendendo que, quando se trata de uma cultura que não se quer elitista e excludente, aquilo que a literatura traz de mais transformador pode e deve conjuntar com o elemento musical, formando uma espécie de híbrido (mestiçagem artística como sugeriu Lenine), capaz de trazer para o centro da cena as experiências engajam outros possíveis . É nestes constantes atravessamentos que podem se fazer os encontros e os sonhos que alimentam o cotidiano de todos nós.

Mas aqui se trata também de cinema. E um cinema que (se) abre para testemunhar os traçados desse jogo e dizer de sua contribuição. Aqui, o dizer se faz no “silêncio” da iluminação e da fotografia (esta última cargo de Pedro Farkas) - ambas captando “caras e bocas” molecas ou sérias, olhares que divagam e se deixam apreender nas suas reminiscências, ou produzindo o clima mais preciso, capaz de forjar a pausa necessária para refletirmos sobre as muitas informações que recebemos -, na precisão dos cortes - que permitem um andamento agradável, sem se deter excessivamente num ou noutro ponto do vasto repertório de questões e músicas maravilhosas -, no roteiro (da própria Helena, Diana Vasconcelos e Márcio Debelian), que privilegia a simplicidade e permite que as falas possam se encadear, sem que pareçam rebuscadas.

A direção mostra uma concepção que respeita arte não somente em seu aspecto formal, mas principalmente como real perspectiva de intensificar a transformar corpos e vidas. Por isso, também, o filme emociona. Claro, as imagens de arquivo, mostrando tempos onde a palavra e música se fazem mais potentes e produtores de mudanças (bossa nova e tropicália, por exemplo) são muito bem colocados.

Por tudo isso ver esse filme é obrigatório. Ao sairmos nos damos conta de que não só a palavra pode ser encantada. Também o cinema (no qual ela tem um lugar fundamental) é capaz de nos retirar do insosso do cotidiano, inventando outros afetos e delícias.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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