Comentários de filmes

FILME

"PARIS" de Cédric Klapisch

PARIS

Foto: divulgação

Humor e leveza em contos urbanos de amor e morte.

Filme

PARIS

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• A intenção mais imediata de “Paris” parece ser apresentar um desenho mais humanizado e menos idealizado da vida cotidiana na cidade das luzes. Junto com isso, desnaturalizar velhos (pré) conceitos, especialmente das relações entre seus habitantes, insistindo na passagem entre planos gerais da cidade vista de um ponto mais alto e primeiros planos nos quais os afetos são destacados, ao mesmo tempo em que os territórios (geográficos e relacionais), tanto públicos quanto privados. Mas o efeito alcançado vai além desse jogo de cenas, diga-se de passagem, muito bonito. Trazendo pequenas estórias que em parte se entrelaçam e caracterizam a tragédia humana, cravada nos encontros onde vida e morte figuram uma dança repleta de nuances inesperadas, Cédric Klapisch constrói uma reflexão delicada sobre os destinos possíveis que podemos dar às paixões, ainda que recorrendo a velhos clichês (e talvez por causa disso) na montagem dessas estórias que funcionam como contos, um pouco dentro dos códigos da cultura na atualidade, e muito fora do senso comum, que muitas vezes funciona como uma camisa de força para a vida criativa.

O jovem dançarino que descobre ter uma doença grave no coração e a partir daí desenvolve outro maneira de estar com os outros e com aqueles que são mais próximos, como a irmã; o professor, taciturno e erudito, que vive uma paixão por uma bela aluna muito mais jovem e se decide a realizar um trabalho para um veículo de massa, fatos que o obrigam a repensar valores e certezas, além de literalmente chacoalhar com seus afetos e planos de vida; a mulher só e dolorida que reconstrói, nos encontros mais comezinhos forjados nas exigências do dia a dia, sua amorosidade sexual, enquanto cuida dos filhos e oferece ternura para irmão combalido; a dona da confeitaria, mulher dura e preconceituosa que acaba se rendendo aos encantos de uma atendente de cor; os feirantes, com suas palavras de ordem e gestos específicos capazes de conquistarem bem mais do que fregueses...

A galeria de tipos não se esgota aí. Mas mesmo reconhecendo neles algo próximo da obviedade, nos damos conta de que é exatamente sua simplicidade e essa obviedade que nos cativa. Como se dessa maneira ficasse mais fácil lembrar de nós mesmos, criaturas também aturdidas e lutadoras na cena cruel e veloz das grandes cidades.

Os dramas de cada personagem, assim como suas alegrias e esperanças, vão se pondo através de enquadramentos que privilegiam uma leitura de Paris pelo seu avesso, composta de territórios múltiplos e rostos diversos, sem o habitual glamour performático. Os movimentos de câmera flagram contradições, paradoxos, dores não ditas e apenas esboçadas para o outro, desesperos transformados em pedidos de solidariedade, gestos bizarros que expressam intensa alegria e expansão erótica, silêncios contemplativos e solidões que nem sempre são negativas e sofridas. Assim a Paris de Klapisch é acolhedora e sua beleza reside menos nos monumentos do que na construção paciente de cada existência, arte que se faz sem alarde e que não dispensa o bom humor, que ninguém é de ferro.

A narrativa segue um ritmo que não atenua a densidade das questões, mas há uma agilidade nas cenas e nos cortes que torna o acompanhamento mais fácil. O roteiro (do próprio Klapisch) não se compraz com a linearidade didática, porém as estórias são bem claras e caracterizadas no seu jeito específico, quer se cruzem diretamente ou não. A fotografia de Christophe Beaucarne é bonita, construída em tons fortes e contrastantes. Tudo isso permite a fruição daquilo que é o principal do filme: falar sobre pessoas comuns, com suas tragédias e dramas, construindo territórios físicos e existenciais através de ações que em geral respeitam a vida e a criação, sem negar a presença da morte e da dor.

Desse ponto de vista o trabalho de todo o (excelente) elenco está brilhante, ponto alto do filme. Destaque para Juliette Binoche (Èlise), Romain Duris (Pierre), Fabrice Luchini (Roland Verneuil), estes um pontinho acima dos demais. A música (a cargo de Luc Dury, Christophe Minck e Robert Burcke) faz boas entradas, privilegiando o limite entre a solidão e a solidariedade que comparece muitas vezes.

Assim, “Paris” é um filme bem feito e com uma temática atual. Consegue trazer pensamentos interessantes e até ácidos sem abrir mão de um certo otimismo. Merece elogios e a indicação do comentarista.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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