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FILME

“Partir” de Catherine Corsini

Kristin Scott Thomas

Foto: divulgação

Drama provocativo sobre o irrecusável da paixão amorosa

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“Partir” de Catherine Corsini com Kristin Scott Thomas

A impressão que fica é que o filme pega forte e de maneira oblíqua. Contar uma estória em que um dos partners de um casal há muito estabelecido se vê tomado por uma intensa paixão e larga tudo se dispondo a pagar todos os preços para viver em paz (?!) sua conquista é quase chover no molhado. Também não constitui novidade a inclusão neste triângulo de um representante da classe operária ou mesmo um tipo outsider. Claro, tudo é muito explosivo e se for bem conduzido nos deixa irrequietos, ardendo junto com algum dos protagonistas, posto que num universo como este ninguém sai incólume.

Catherine Corsini trabalha com todos esses signos e instrumentaliza o “escândalo” com fortes cenas de sexo (sem esquecer que se trata de um sexo-paixão), mas dá um toque singular: faz isso acontecer com uma bem estabelecida mulher e mostra as transformações que se operam com uma absoluta economia de sentidos e explicações em praticamente todas as cenas. A rigor não ocorre qualquer cena na qual se possa encontrar um dado que fornecesse um suporte para a postura de absoluta entrega e abandono com que a protagonista Suzanne encara seu destino, com um ex-presidiário e operário (Ivan), que ainda encontra contratempos para se estabelecer.

Entendemos, sem dúvida, quem seu casamento está pra lá de cansativo, empobrecido sexualmente e numa rotina mortífera. Mas as mesmas cenas também nos levariam a pensar que mesmo com todos os motivos para detestar sua vida de casada Suzanne poderia prosseguir, posto que encontrava benesses aceitáveis, como a possibilidade de retomar sua profissão com uma ajuda não negligenciável do próprio marido, e o contato com os filhos.

É aí que o filme dá uma guinada e segue uma paixão que poderia ser explicada e justificada de muitas maneiras, mas que dispensa tudo em nome da pura afirmação de vida, ainda que esta afirmação inclua aquilo que não se organiza atendendo aos chamados das comodidades e conservação da estabilidade dos laços familiares. Assim, Suzanne não precisa de muita coisa para partir (embora seu marido vá lhe cobrar um preço caro, de várias maneiras) e produzir outros laços e quotidianos, com a força pura e “ingênua” dos amantes. Ivan, por sua vez, irá fundo na luta que terá de haver para que ambos possam na prática exercer o poder de seus desejos e escolhas. Também o filme não precisa de muito tempo (os cortes, elípticos, se sucedem com inteligência) para assinalar os conflitos, ódios, rancores, perplexidades, etc que costumam abundar nestes momentos as vidas dos enlaçados. Além disso, faz questão de centrar a discussão nas andanças de Suzanne, soberba com sua conquista amorosa e esmagada pelas tristezas e dificuldades com as quais tem que conviver, principalmente aquelas que o marido (Samuel) produz.

O final não deixa de surpreender, até por um artifício do roteiro e da habilidade da diretora em deixar as coisas em aberto, mesmo quando tudo parece assentado, no campo do sentido. Então, podemos dizer que “Partir” quer falar dos impulsos, de sua força afirmativa, de sua proximidade com a morte, dos riscos e dos atos que produzem riscos. Sem pedir licença para justificar as coisas de acordo com os padrões de moralidade existentes. Pode-se até mesmo dizer que em muitos momentos, sem ter essa ´pretensão, mas no limite mesmo de conclusão da trama, propõe uma questão sobre a ética e a moral. Não há uma resposta dada, mas as perguntas são ótimas.

Os atores são um dos pontos fortes, bem assessorados por enquadramentos e movimentos de câmera que destacam as nuances de suas interpretações intensas e verdadeiras. O trio Kristin Scott Thomas (magnífica como Suzanne, a burguesona que se transforma numa guerreira indomável), Sergi Lopez (compondo um Ivan, denso e consistente no reconhecimento da complexidade da relação e do momento de vida) e Yvan Attal (Samuel, o marido cruel e ressentido, mas disposto a tudo para manter as aparências hipócritas de um casamento sem qualquer prazer nem mesmo para ele) dá o tom e a tensão do filme, sem excessos de melodrama. A fotografia é outro ponto forte, construindo as paixões de Suzanne e Ivan, especialmente nas (belas) cenas de sexo.

Então, não deixe de ver. O jeito enviesado de dizer do feminino e do além das convenções proposto por Catherine Corsini merece ser testemunhado.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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