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“É proibido fumar” de Anna Muylaert

É proibido fumar filme de Anna Muylaert

Foto: divulgação

Inteligente e bem humorada crítica de costumes

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“É proibido fumar” de Anna Muylaert

Baby é uma mulher solitária e fumante inveterada. Com isso é um tanto marginal por relação às expectativas gerais que proclamam a obrigatoriedade de uma posição mais forte no mercado sexual e uma atitude adequada ao comportamento politicamente correto das normas de saúde. Sua vida monótona de professora de violão se transforma ao conhecer um outro ser à beira da margem que a classe média elegeu como sua segurança de razão e bem estar: Max é um músico que vive com muitas idéias e poucas realizações, vivendo de alguns bicos, o principal deles numa churrascaria onde toca pagode. Eles viverão um romance que vai mudar um pouco sua face menos normalóide. Mas... nem tanto. No entorno desse simpático casal, circulam pessoas de todo o tipo, hilárias em sua maioria. Todos com um estilo fora dos padrões mais performáticos e brilhantes que são impostos na massificação geral.

O filme de Anna Muylaert traz a provocação humorística como elemento central da empatia que estabelece com o público. A tal ponto que mesmo quando não provocam um riso mais frontal as cenas suscitam graça e sugerem que os personagens também são capazes de achar graça de suas pequenas (ou grandes) esquisitices.

Assim, os entrelaçamentos que acontecem ganham coerência à luz desse humor, menos na descrição e interpretação das angústias das pessoas simples que convivem na grande São Paulo do que no acompanhamento do destino dado aos afetos e conflitos que incendeiam o cotidiano. O modo de contar a estória desse casal e de todos que eles encontram é marcado por grande agilidade na passagem das cenas, equivocando entendimentos mais racionais para propor o chiste como recurso de pensamento. Aí o riso é farto, ou nem tanto, mas com certeza convoca à reflexão sobre as situações que vivemos, muitas delas beirando o absurdo não obstante sua pompa de moralidade e necessidade.

Assim, a crítica dos ditos costumes deixa de ser algo ressentido para gozar do direito de pensar como eles se constroem, a partir de que interesses parecem tão necessários e quais são as reais experiências que as pessoas deles fazem. Aí está o ponto maior do filme porque pede o trabalho dos atores, sua química (com se diz) com os personagens e a capacidade de se comunicar com o público sem maiores rebuscamentos. Aliados às proposições de roteiro e direção (da própria Anna) que economizam nas palavras e explicações para apostar na força do gesto e da figuração non sense, eles se esbaldam. Glória Pires e Paulo Miklos, excelentes, são muito bem acompanhados por Marisa Orth, André e Antonio Abujamra, Paulo César Pereio (este numa aparição rápida) e outros mais, todos com um toque de sabedoria das malandragens e ritmos que fazem dos encontros algo diferente de uma comunicação formal, sem rachaduras.

“É proibido fumar” tem boas músicas, uma trilha sonora gostosa (a cargo de Marcio Nigro). A fotografia (Jacob Solitrenick) também é boa.

Então, o que está esperando? Aproveite. Neste filme não há proibições a não ser para o mau gosto e a melancolia política e estética.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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