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“QUEM DISSE QUE É FÁCIL?” de Juan Taratuto

QUEM DISSE QUE É FÁCIL? de Juan Taratuto

Foto: divulgação

Suave maneira de abordar as angústias do amor

“QUEM DISSE QUE É FÁCIL?” de Juan Taratuto

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Já se disse muitas vezes, a ponto de virar clichê, que rir de nós mesmos é uma boa forma de combater ressentimentos e também revigorar a crítica, evitando cair na armadilha da melancolia. Se isto pode ser aceito como algo verdadeiro, então a comédia “Quien dice que és facil” (no original) oferece um antídoto de boa qualidade aos mal humorados sentimentos que por vezes nos acossam quando se trata de dar sentido a aproximações que teimam em ocorrer, mesmo quando (e, sobretudo quando) não estamos esperando.

Tudo (ou quase) é tratado neste filme de maneira a produzir um gesto de leveza no espectador, mas isto não significa descompromisso com um pensamento que se quer afirmativo do direito à diferença e da importância da discussão sobre os novos modelos de relação amorosa, sobrepondo-se ou não aos mais tradicionais. Neste trajeto, avultam as piadas e gozações sobre as neuroses de cada um, o grau maior ou menor de submetimento aos enredos e crenças culturais, e last but not least, uma questão (já não tão recente, mas sempre interessante) sobre a maternidade e a sexualidade nos tempos ditos pós-modernos. Fica claro que um dos alvos é a atitude preconceituosa (e até machista) que desqualifica o outro e é capaz de embotar até mesmo as mais intensas e genuínas paixões. Mas não há nem a pretensão do profundo, nem a arrogância da explicação intelectualizada. Com exceção de alguns poucos momentos onde o roteiro parece evoluir para um certo psicologismo, o filme segue a rota que experimenta juntar o dito inteligente e o mis en scéne adequado às situações, para revelar o aspecto hilariante dos encontros, mesmo quando sofridos.

O enredo focaliza o super obsessivo Aldo (verdadeira figuraça) e seu encontro com Andréa, uma vizinha pra lá de estranha (para os padrões concebidos por Aldo como verdade), com uma beleza insinuante e a sexualidade à flor da pele. Ambos vão estar porta a porta, e, nas suas solidões vão se refazendo – especialmente Aldo –, não sem dificuldades enormes, dadas as grandes diferenças existentes. Eles se apaixonam, claro, mas ela está grávida e não sabe quem é o pai da criança... Bem, a partir daí muitas coisas acontecem e vamos nos acercando da distância que há entre os universos de um e de outro. Também vemos que ambos se esforçam para compor com o que se apresenta como impossibilidade. Outros personagens comparecem, na mesma toada. A questão é como se permitir abraçar outros mundos via paixão amorosa. Ou quaisquer outras paixões. Isto é mostrado com todas as contradições, paradoxo, incongruências que são do humano. Sem idealismos.

A química entre os atores, principalmente Diego Peretti (ótimo) e Carolina Pelleritti (também ótima e muito bonita). Ela garante boas risadas, mas há também boas tiradas com os amigos de Aldo (destaque para Daniel Rabinovich). A direção é ágil e joga bem com o tempo, essencial para as piadas terem graça e fazerem sentido.

Em suma, o filme é uma boa pedida se queremos uma diversão inteligente sem questões e profundidades excessivas. Se a expectativa é de dar gargalhadas, não deixe de ir.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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