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“QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?” de Danny Boyle

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? de Danny Boyle

Foto: divulgação

Quem topa ser um Slumdog

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO de Danny Boyle

Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Das duas perguntas colocadas acima a primeira parece ser, de longe, a mais adequada e coerente. No mínimo é mais fácil de responder. A favor da segunda o fato de destacar a expressão que tanta celeuma causou na Índia, celeumas que aparentemente desapareceram após as conquistas na academia de Hollywood. Ela comparece no título original, “Slumdog Millionaire”, que descreve melhor a atmosfera do filme, indicando em seu contraste (literalmente, favelado milionário) um certo estilo de narrativa – a tradução escolhida se refere ao programa freqüentado pelo simplório protagonista e que o faz herói de todos (ou quase), não fosse este um programa talhado para produzir heróis...

O fato é que a irônica pergunta que serve de título ao comentário desse premiadíssimo filme de Danny Boyle (produzido com um custo mínimo para os padrões vigentes) se impôs a este comentador como uma espécie de reação ao bombardeio de imagens estilizadas e frenéticas que são apresentadas a uma velocidade o mais das vezes estonteante, sem as pausas que poderiam contemplar o espectador em seu desejo de pensar com mais cuidado sobre a(s) mensagem(s) que o filme veicula.

A trajetória de Jamal Malik (ascendência muçulmana) de menino perdido pelas ruas sujas e violentas, objeto de perversos desejos e propostas, “pobre de tão negro e negro de tão pobre” - se me permitem parafrasear Gil e Caetano -, obrigado a suportar o testemunho do assassinato da mãe e desenvolvendo uma redentora afetividade, a princípio por uma menina e depois mulher, Latika, também ela com uma história de abusos e submetimentos, emociona. Aliás, o filme pode ser lido, numa perspectiva elogiosa, como uma fábula sobre o poder da insistência: insistência de um amor infantil, inaugurado no desespero do abandono e sustentado na solidariedade e respeito atravessados pelo sonho de um futuro a rigor incerto, mas sempre perseguido e afirmado como possível. Insistência da vida, tornada nua e sem valor, em manter-se firme e ousada na luta cotidiana. Insistência que leva Jamal a buscar o programa, de modo singelo, para se fazer possível para sua amada.

Seguindo esse raciocínio é interessante observar a ênfase dada aos “acasos felizes” que fazem de Jamal alguém capaz de responder às perguntas do programa. Todas as respostas remetem às situações vividas no limbo social, algumas efetivamente traumáticas. Ponto para o roteiro de Simon Beaufoy (adaptação do romance “Sua vida vale um milhão” de Vikas Swarup), capaz de empregar verossimilhança à narrativa, sem prejuízo do drama e até do suspense que impregna o filme.

O problema reside na pretensão de fazer uma espécie de crítica social, no famigerado estilo denúncia do que acontece com os pobres e que causa suas dores e escolhas, muitas delas diferentes da realizada por Jamal, como a do seu irmão Salim, que se torna bandido malévolo, até se arrepender das maldades feitas ao próprio irmão. Esse e outros maniqueísmos dão um contorno folhetinesco à narrativa e servem para idealizar ainda mais a conquista de Jamal. Como um conto de fadas com final feliz (e direito a um número super dançante, com a melodiosa “Jai ho”, ao final) tudo se resolve pelo amor e o merecimento pelo sucesso adquirido. Isso pode ser bonito, mas soa muito superficial. As cenas nas quais todo o povo pára diante da TV no acompanhamento do desfecho do programa são forçadas e até patéticas. Como se tudo se resolvesse pelo fato de um favelado beliscar o objeto de desejo do consumismo, conquista que até mesmo doutores não alcançaram.

Mas isso significa que é um filme ruim? Não! “Slumdog Millionaire” é um ótimo entretenimento, bem dirigido, com interpretações interessantes, boa fotografia e cenas de ação com cortes inteligentes capazes de garantir o ritmo veloz da narrativa (a comparação com “Cidade de Deus” é inevitável). Fala sobre e mostra uma Bombaim cravada pelo lixo, violenta e cruel, escarnecendo das hipocrisias com diálogos bem construídos e adentrando o universo da perversão social com perspicácia. Mas é entretenimento, apenas isso.

O elenco principal é de atores indianos e dentre eles o trabalho de Anil Kapoor como Prem Kumar, apresentador do programa, é admirável. Dev Patel e Freida Pinto como Jamal e Latika (adultos) estão bem, mas o trabalho de Madhur Mittai como Salim, o irmão mau que se deixa levar pelo crime e a ilusão (?!) de poder a ele associado está vários pontos acima. A trilha sonora (a cargo de A. R. Rahman) também merecedora do Oscar, segura bem o andamento dramático a que se propõe o filme. Enfim, tudo arrumadinho, de acordo com a estética “globalizada” e pasteurizada dos dias atuais. Terá sido por isso que alcançou 8 premiações à frente do fantasmagórico “O Leitor”? Essa pergunta não quer calar.

Mas não se importe com isso. Vá ver o filme e divirta-se, cante “Jai ho” na hora de conferir os créditos finais e saia do cinema prestando muita atenção aos “slumdogs” que teimam em infestar as calçadas de sua cidade (aqui no Rio de Janeiro existem aos milhares). Talvez eles estejam esperando a tal chance que Jamal Malik aproveitou. O diabo é que seria preciso muitos desses programas (e muitas décadas!) para fazer deles novos milionários.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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