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CARNAVAL 2011

RELIGIÃO E CARNAVAL: UMA RIXA ANTIGA!

Por João Pedro Roriz - Rio, 02/03/2011

RELIGIÃO E CARNAVAL: UMA RIXA ANTIGA! “Lá vou eu... lá vou eu” pra fora do Rio de Já-neura neste carnaval. Da última vez que eu tentei escapar desta festa de pagãos, me exilei no meio do mato. Para a minha “sorte”, um grupo de religiosos teve a mesma ideia que eu. Resultado: passei o feriado todo ouvindo procissões, lamentos, ordens contra o demônio e aquelas músicas que rimam “Jesus” com “luz” (a Madonna adora) e “Senhor” com “louvor”.

Você já deve ter percebido o clima de rivalidade que envolve religiosos e foliões durante a época do carnaval. Esse fenômeno possui uma explicação histórica.

“Carnaval” é uma palavra que lembra “carne vã”, algo que cheira a prazer da carne. A origem do carnaval remonta os bacanais romanos e os festivais gregos da Era Antiga. No século VI a.C., todos os “homens de bem” de Atenas saíam às ruas para participar de procissões conhecidas como Komos e com isso, homenagear Dioniso (ou Baco) e gozar uma semana de bebedeiras e competições.

No Brasil, a tradicional semana de folia parece começar no Natal, englobar o ano-novo, as férias de janeiro, o carnaval e até mesmo a Quarta-feira de Cinzas... Muitos pais de família perdem a compostura na terça-feira de carnaval para, no dia seguinte, aproveitar o feriado católico para pedir perdão a Deus e transformar a “carne vã” em cinzas.

O surgimento do cristianismo no mundo antigo provocou um choque cultural nas sociedades politeístas e, com o advento do catolicismo, a dicotomia entre as culturas pagã e religiosa se intensificou: o mito de Adão e Eva foi criado em resposta aos mitos de Deucalião e Pirra na Grécia e Shu e Tefnut na Índia. Neste último país, a imagem de Ísis com seu filho Hórus no colo foi lentamente substituída pela figura da Virgem Maria com o menino Jesus.

A festa pagã do carnaval tem tudo a ver com a mitologia, pois é resquício da cultura politeísta adotada pelos povos grego e romano. Momo, na mitologia grega, é considerado a encarnação do escárnio e das burlas, uma espécie de entidade maléfica que acompanha os homens. Na mitologia, Momo não é necessariamente gordo. A imagem do Rei Momo pesadão que conhecemos hoje faz referência aos dias de folia, considerados “dias gordos”, em resposta ao jejum que a Igreja Católica impõe aos seus fiéis durante a Quaresma que antecede as festas religiosas da Semana Santa.

Existem registros históricos que provam que nos primeiros carnavais helênicos da Grécia Antiga, alguns comediantes dóricos falavam versinhos sacanas e faziam procissões vestidos com fantasias que imitavam falos gigantes. Assim nascia o termo “Comédia” (komos + ode). Isso talvez explique a tradição das fantasias e das marchinhas maliciosas e engraçadas do período carnavalesco.

Engraçado de verdade é assistir de camarote a guerra de liminares entre Igreja e escolas de samba antes dos desfiles. Será que a arquidiocese brasileira ainda não percebeu que as escolas aproveitam a polêmica do uso de símbolos religiosos em seus carros alegóricos para ganharem alguma evidência na mídia? Minutos antes do desfile, os carnavalescos trocam a imagem religiosa de Adão pela figura pagã de Deucalião e está tudo certo! Ninguém nota a diferença, afinal, é tudo mitologia.

E por falar em mitologia, convido a todos para a palestra “A Influência da Mitologia na Literatura” que marcará o lançamento do romance infanto-juvenil “Eros e Psique”, de minha autoria, na livraria Paulus (rua México 111, Centro do Rio), dia 1º de abril (sexta-feira) à partir das 18h .

João Pedro Roriz é escritor e jornalista
www.joaopedrororiz.com.br

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