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“ROMANCE” de Guel Arraes

Romance: Com Wagner Moura e Letícia Sabatella

Foto: divulgação

Doce e inteligente modo de falar/pensar o amor romântico

Luiz Felipe Nogueira de Faria

Romance filme de Guel Arraes: Com Wagner Moura e Letícia Sabatella

•Os dois personagens principais do novo filme de Guel Arraes discutem todo o tempo sobre a herança deixada pelo século XII, com a estória de Tristão e Isolda. E não apenas discutem. Encenam, escrevem peças e filmes e vivem em suas vidas toda a carga dramática que envolve o amor e a paixão de acordo com tal herança. Esse é o mote que dispara a discussão que perpassa todo o filme: em que medida somos ou estamos escravizados a certas experiências do amor e do romantismo que naturalizamos como verdades e qual a possibilidade de, sem recusar essas imagens que nos acompanham durante séculos, produzir outras verdades, outras imagens e experiências do encontro amoroso. A bem da verdade, todos os personagens do filme discutem Tristão e Isolda, com pontos de vista diferentes, mas sempre com grande reverência. E esse é outro ponto de grande magia, pois ao fim de tudo não há quem não esteja imerso numa atmosfera de paixão, expectativa, intensidade, e tudo o mais que aprendemos a codificar como romance.

Então, o percurso de Ana e Afonso, atores que se apaixonam pelo romance Tristão e Isolda e também entre si se vê marcado por estes questionamentos e confrontos. Ambos seguem caminhos que os levam a desencontros e reencontros, mas em todos os momentos está em primeiro plano o amor-paixão e as várias tentativas de redimensiona-lo à luz da urgência em criar outros possíveis e superar impasses morais e éticos. O mais interessante é que o próprio enredo traz para o centro do debate os vários meios artísticos (teatro, televisão e cinema) pelos quais é possível se apropriar do problema colocado pelo romance, com cada diferença de estilo sendo mais uma peça a se encaixar no quebra-cabeça que vai se tornando o encontro de Ana e Afonso, especialmente quando Ana se vê arrebatada por outra paixão. E assim, num genial jogo de espelhos, Ana e Afonso não apenas interpretam os famosos personagens, mas tornam-se também estes mesmos personagens em suas vidas, arte e vida se misturando e se contaminando de maneira irreversível e permanente.

A esta altura o espectador já está irremediavelmente capturado. Apaixonado pelos caminhos que os personagens seguem e apaixonado pela própria paixão que lhe é suscitada por diálogos líricos e bem articulados e tomadas de cena que privilegiam captar em cada rosto e corpo a espontaneidade alegre (ou triste) do amor/ódio brotando e se expandindo.

O desafio que vai ocupar os modernos Tristão e Isolda (sim, de certo modo repetimos Tristão e Isolda, queiramos o não, esta é uma das mensagens do filme) será o de se haver – especialmente Afonso que se põe a escrever um roteiro adaptado para a tv – com as exigências estéticas de um produtor rigoroso e muito voltado para a audiência de seus programas. É aí que o roteiro mostra um grande fôlego, pois os embates entre Afonso e o produtor também fazem parte de uma experiência de paixão e amor: o amor/paixão pela arte, o encontro com o desconhecido que ela impõe, movimento respeitoso com a criação, seja ela no campo artístico estrito, seja na vida comum.

“Romance” opera com delicadeza a desconstrução do mito do amor-sofrimento tratando com bom humor e generosidade os conflitos que surgem ao longo da trama, sem apelar para os piegas e/ou dramáticos. Tem-se mesmo a impressão de que ao fundo somos convocados a dar uma grande risada, como, aliás, podemos fazer na última cena, acompanhando o destino que Ana e Afonso dão para a peça que encenaram no início de (sua) história. Uma boa risada como antídoto contra os males e doenças do amor. Porque não?

As interpretações de Wagner Moura (que extraordinário ator!) e Letícia Sabatella estão excelentes. Mas todo o elenco está ótimo, como por exemplo, José Wilker (o produtor estressado) e Andréia Beltrão (fazendo um tipo ao mesmo tempo hilário e eticamente suspeito). O roteiro, do próprio guel e de Jorge Furtado é delicioso, especialmente nas falas em off, críticas e humorísticas.

“Romance” é especialmente indicado para aqueles que acreditam que o cinema pode encantar e apaixonar e ainda fazer pensar. No caso, um pensamento embalado pelos sonhos e intensidades de Tristão e Isolda...

Site Oficial: www.romanceofilme.com.br

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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