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COMENTÁRIOS SOBRE FILMES

“SCOOP – O GRANDE FURO” de Woody Allen

 A atriz Scarlett Johansson

Foto: divulgação

Entretenimento à la Woody Allen

Filme

Scoop o Grande Furo - Filme de Woody Allen
Com a atriz Scarlett Johansson

Luiz Felipe Nogueira de Faria

• É certo que os filmes de Woody Allen sempre oferecem algo mais do que uma simples diversão descompromissada. Nos acostumamos, mesmo naqueles em que a temática não prima por uma provocação mais aguda, sair do cinema pensando em alguma cena desconcertante (ou mesmo uma simples frase dita por algum personagem mais pitoresco), capaz de embaralhar as representações mais comuns sobre a vida dos humanos nas grandes cidades, seus paradoxos, tristezas, desencontros e paixões - geralmente fora da norma. Tudo isso com aquele toque de humor, as vezes amargo, que nos inclui na trama, trazendo para a cena do nosso quotidiano algum aspecto patético de nossa existência, que em geral teimamos em desconhecer. Isso quando não somos confrontados com a tragicidade inquietante e aflita que se impõe em estórias onde se trata de afirmar o mal estar que nos persegue em encontros que, aquém ou além das escolhas possíveis e desejadas, implicam em profundos riscos e conflitos, sempre permeados pelos acasos que (também) nos constituem, como foi o caso do recente “Match point”.

Dessa vez o gênio de Allen nos põe diante de uma temática que segundo ele mesmo faz uma homenagem aos jornalistas/investigadores, capazes de deflagrar casos onde a ética das relações comparecem como pontos de referência importantes. Mas a abordagem soa despretensiosa (meio “sessão da tarde” , como definiu uma amiga, como eu fascinada pelo cinema de Allen) na medida em que, pelo viés da comédia, somos convocados a rir dos caricaturais percursos dos personagens. Uma jornalista inexperiente e “doidinha” – Scarlett Johansson, mais uma vez competente e deliciosa -encontra-se com um velho mágico – o próprio Woody Allen, cômico e rascante como sempre – e, invadidos pelo fantasma de um famoso jornalista já morto (Ian Mcshane), se põem a “brincar” de detetives, investigando a vida da aristocracia inglesa, para alcançar um furo jornalístico (scoop). Qual o furo? A descoberta de assassinatos possivelmente relacionados a um importante e belo aristocrata, interpretado com a sobriedade adequada por Hugh Jackmann.

Os caminhos e descaminhos dessa inusitada dupla (assessorados pelo falecido jornalista) são hilariantes e até comoventes, se pensarmos que ambos habitam um universo completamente distante das festas, mansões e valores que estruturam a lógica aristocrática. O roteiro enxuto e os diálogos inteligentes garantem que o espectador permaneça atento ao desenrolar da trama (que não deixa de ser policial, afinal trata-se de procurar um assassino). Esta não deixa de seduzir pelo fato mesmo de apresentar, ainda que num tom suave e brincalhão, algumas linhas mestras das conhecidas reflexões Woodianas _ por exemplo, a presença insidiosa e inexorável da morte, o sexo como um dos principais artífices do nonsense humano, a ignorância sobre o outro como destino... Ao fundo, uma enorme gargalhada sobre a pretensão dos humanos em saberem da vida e sobrepujarem as perdas. Na perspectiva do filme, a superficialidade dos valores aristocráticos e a sensação de potência vivida a partir da certeza da impunidade e da destreza em manobrar os fatos e valores. (puxa, deve ser estranho viver numa sociedade assim!).

Com esse filme rimos e nos divertimos. A cena onde o mágico se apresenta como o pai da jornalista na piscina, onde ambos haviam simulado o afogamento dela para fisgar o milionário é impagável, assim como o fascínio que este pai de “ultima hora” exerce nos convidados das festas (com frases críticas e bem humoradas que eles mesmos não entendem) para desespero da jornalista que teme ser descoberta, evoca os grandes momentos das melhores comédias do cineasta. Mas não nos enganemos: este mágico /gozador é um solitário numa Londres que impõe carros que não sabe dirigir (porque o volante “não está de lado certo!”). Mas ele estará disponível para dirigir um desses carros, num momento crucial da trama. Solitário e aventureiro, como os que ousam em suas buscas.

No mais, é ver e conferir. Este passeio de Woody Allen pela comédia mais descompromissada é apenas um modo diferente de nos provocar. Provocar e inquietar.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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