Comentários de filmes

COMENTÁRIO DE FILME

“Se nada mais der certo” de José Eduardo Belmonte

“O nome dela é Sabine” de Sandrine Bonnaire

Foto: divulgação

Passeio esquizo pelas capturas e deslizamentos da vida bandida

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“Se nada mais der certo” de José Eduardo Belmonte

Desde o início, este superpremiado trabalho de José Eduardo Belmonte, mostra que sua intenção é discutir (no mínimo) as complexas relações que se fazem, refazem e cristalizam no tecido urbano, em especial aquele que é delimitado pelas insígnias da marginalidade, sendo que essa marginalidade alcança também as camadas mais baixas da classe média, cada vez mais espremida e desesperançada, condenada aos lixos dos arquivos do capitalismo selvagem.

Na citação de Rousseau que serve de epígrafe encontramos uma menção explícita não só aos problemas que podemos chamar de luta de classes, mas também aos valores que são construídos nas muitas situações onde uma cultura afirma sua existência, para além dos discursos e ações oficiais. Assim, constatamos que se trata de um filme que exerce uma reflexão incisiva, sem fazer concessões às exigências da cultura do entretenimento, ao menos no que diz respeito a questões que são propostas e que explodem na tela com uma intensidade de causar espanto.

Além disso, o enredo e as tramas que nele se desenvolvem tocam às raias do absurdo e do grotesco, sem que nem um nem outro se despotencialize em sua força de disjunção e apagamento das identidades estáveis e unitárias. E, traço maior da estética exercida por Belmonte, os personagens, diálogos, trajetórias de vida bem como os encontros, eróticos e tanáticos, são registrados num diapasão que respeita e segue suas estratégias para sobreviver ao e no caos.

Com isso, a busca é sempre dos estilhaços e da orfandade, construção de imagens que remetem imediatamente ao vazio e à ausência de sentidos apaziguadores com códigos estabelecidos. Dito de forma mais clara e numa linguagem que os adolescentes tanto gostam: o filme é pauleira e irado. Só que essa pauleira e essa ira não se referem ao conhecido estilo dos filmes de ação, requintados nos seus efeitos visuais e reafirmando a lógica da potência dos heróis e da tecnologia que os faz viver, reproduzindo as certezas e exigências da cultura de massas. Aqui, a pauleira é dor que desliza sem parar, perplexidade que não remansa, queda permanente na repetição, e, ao lado disso, veia criativa e solidária, que insiste em existir, ainda que sua maior beleza seja emergir, na maior parte das vezes, nas valas e bueiros, entre restos malcheirosos e criaturas asquerosas. É de lá que Belmonte nos fala, é para lá que nos chama, é com os instrumentos que se adequam as estes lugares, tornando-os visíveis e até familiares, que o filme ousa traçar seu dizer. A viagem é dura, mas a recompensa é maior.

O que podemos registrar é exatamente isso. Criaturas, perto (excessivamente perto!) de nós, sob muitos pontos de vista, se tornam restos, como restos se articulam e se põem a jogar os jogos crus e perversos da selva cotidiana e se refazem com seus próprios restos, encontrando, no caso dos protagonistas principais, uma saída inesperada no gesto de resistência às imposições da rede mafiosa (da qual também participam) e dos estratagemas da cultura da drogadicção. Tendo como entorno a bandidagem paulistana e os referentes pulsantes do urbanismo cosmopolita, o jovem jornalista Léo, o taxista Wilson, o andrógino e avião de asfalto Marcin, a drogadita Ângela (com seu filho) e Leda, a empregada que cuida de todos inclusive do filho de Ângela, constroem vidas sempre à beira do desaparecimento, real ou simbólico, mas sua luta não se reduz aos golpes e lucros que os tornam mais afeitos ao esquemão falocêntrico que a tudo quer nomear e explicar. Suas vidas alcançam dignidade e até uma certa leveza nos momentos em que se despojam às diferenças e pedidos dos outros, desenhando afetividades inseparáveis das ações cotidianas que propõem a ética do cuidado. É isto que no final de tudo realmente importa, se nada mais der certo...

A trama possui uma densidade e uma agudeza tais que seria impossível e até indesejável comentar em tão poucas páginas. Basta dizer que o excelente roteiro (do próprio Belmonte, além de Breno Akex e Luis Carlos Pacca) permite transitar nos vários registros de experiência dos personagens, exigindo para isso uma boa velocidade no acompanhamento e na captação dos sentidos dos diálogos. Muitos deles geniais em sua ironia e cinismo - não o cinismo apático e acomodado que tudo justifica, mas aquele rascante que incomoda e desconstrói algumas certezas e crenças que nos impomos. Coerência e precisão na caracterização dos personagens, brevidade e força para falar dos afetos que invadem as pessoas (com ódios irrefreáveis, claro), mas sem a pretensão de dar sentido e explicar e justificar as ações, à luz do bom senso ou do senso comum. A isso se junta uma fotografia que ajuda a criar a atmosfera fantasmagórica e sombria que se faz presente em todo o filme. Contrastes, luzes brancas que iluminam tanto quanto inventam penumbras, registro de pulsações informes e descontínuas, linda conexão com os silêncios da sarjeta, com o indizível e insuportável dos sofrimentos, com a queda tão redentora quanto traumática. A música de Zepedro Gollo destaca o traço ambíguo das vidas dos nossos (anti) heróis. Bonita, sem exageros operísticos ou coisa do gênero.

Finalmente, a direção de Belmonte é um primor de criatividade, numa linha que privilegia os enquadramentos enviesados e ângulos completamente fora dos olhares habituais. Como a querer surpreender, a cada momento, um corpo ainda por existir e gestos sem representação conhecida, com ritmos marcados por surpreendentes apagamentos entre as cenas. O movimento de câmera indica fluxos sem temporalidade e lugar, desmontando os tradicionais modos com que nos acostumamos a ver e ler as coisas. São bocas que falam sem palavras (elas estão e vem de fora), traços de rostos que não encontram coerência no todo (nem há todo), olhos que expressam excessos para logo depois se desfazerem, corpos que se desmancham no instante mesmo em que experimentam as intensidades, mãos que tomam todo o espaço da cena-tela, falando com seus traços e movimentos. Há também espaço para o mais tradicional, mas ele é a todo o momento transgredido. Sensacional. Neste sentido ponto para a montagem (edição a cargo de Frederico Bibeincher), bem adequada à estética desenvolvida.

O elenco (todo) está afinadíssimo com o trabalho e funciona com muita competência. Cauã Reymond (Léo), Caroline Abras (Marcin), João Miguel (Wilson) estão no limite das vidas de seus personagens, sendo que a revelação Caroline Abras faz um trabalho acima de todos. Menção honrosa também ao experiente Milhem Cortaz (Sybelly), que dá enorme graça a um perverso traveco, digno representante da marginália da noite. Bem na perspectiva paradoxal que o filme apresenta e defende.

Talvez nem precisasse falar tanto. Bastaria lembrar que este trabalho já foi elogiado em muitos lugares e ganhou muitos prêmios. Não foi sem motivo, acredite. Vá correndo! Só não se esqueça que é bem pauleira. E irado!

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

Poste um comentário