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“Só dez por cento é mentira” de Pedro Cezar

“Só dez por cento é mentira” de Pedro Cezar

Foto: divulgação

Mergulho criativo nas diabruras da poesia de Manoel de Barros

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“Só dez por cento é mentira” filme de Pedro Cezar

Fazer jus a um filme que adentra de maneira tão singular à singularíssima trajetória de Manoel de Barros é tarefa inglória, senão ingrata. Afinal, este humilde comentador longe está de possuir capacidades que o tornariam digno das “inutilidades” escritas e professadas a céu aberto nas entrevistas que são realizadas e que permeiam todo o filme. Também não tem este comentador a chama do cantar poético, senão para admirar a música/dança infinita das palavras/imagens e os lugares invisíveis que só mesmo uma percepção distante das razões que aprendemos científicas, verdadeiras e naturais é capaz de alcançar. De modo que a esperança é que o leitor seja convocado a ver e se banhar nos deleites inspiradores do trabalho capitaneado por Pedro Cezar (que também assina o roteiro). Trabalho que tem a grandeza de não competir em nenhum momento com a magnitude do poeta sem com isto abrir mão desenhar com estilo poético cada cena. Seguindo a linha de Manoel de Barros “Só dez por cento é mentira” se faz canoa transitando em mar aberto e improgramável, fazendo de cada minúscula onda um motivo a mais para inventar rumos e ditos que só os sonhos podem explicar. Sonhos infantis, claro.

E, antes de mais nada, trata-se de Manoel de Barros, poeta mais lido na língua portuguesa, artesão do silêncio que se produz quando nos encontramos com o âmago de suas frases (como bem observou Viviane Mosé). Então, a veia lúdica se mostra necessária, convocando a espontaneidade de todos que participam do filme, incluindo (e muito!) o espectador. Todos os entrevistados, entre leitores-admiradores, parentes próximos, amigos para além das amizades mundanas, dizem de seus fascínios a partir do encantamento de uma palavra que brinca com as exatidões sisudas, realizando os impossíveis palpáveis e elegendo-os à categoria de verdade.

Assim, tudo é afetação intensa, qualidade cada vez mais rara numa cultura que exibe a performance-potência dos corpos e ações para afogar a delicada e trágica humanidade que encarnamos quando admitimos receber a sabedoria da invenção libertadora (no dizer de Fausto Wolff). Pedro Cezar capricha no roteiro e acompanha os dizeres do poeta no que tange ao seu ofício fazendo das imagens um contraponto, não simétrico mas preciso, aos vôos e ousadias que se desprendem das descosturas expostas. Sem a pretensão de qualquer rebuscamento nos enquadramentos e nos planos, estes muitas vezes apresentados como uma folha em branco pronta para fecundações inesperadas, a partir do ponto de vista daquele que escreve/inventa. Pensando bem, trata-se também de uma “tela em branco”, posto que também aí há uma escrita, densa em sua simplicidade...

Seja como for, a experiência cinematográfica que o filme proporciona, com todos os ingredientes que fazem o cinema, estão presentes. Incluindo a estonteante trilha sonora de Marcos Kuzca, com um toque de experimental de sons capazes de falar de outro modo (com outra linguagem) a poesia de Barros.

Em suma, é um filme para se extasiar, que homenageia a poesia sem as superficialidades do elogio barato. O que há, isto sim, é um movimento de entrega, paciente e cuidadoso, ofertando o cinema como instrumento de aproximação e troca. Vá ver, correndo! E sequer se pergunte se a vida que corre e escorre a cada dia é real ou ficção. Se você puder captar dez por cento do que o filme diz isto não importará mais.

Isto é, esteja poético e fique são.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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