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“Soul Kitchen” de Fatih Akin

“Soul Kitchen” de Fatih Akin

Foto: divulgação

Experiência provocadora com as peculiaridades da cosmopólis

Comentário

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria. Em 24/06/ 2010

Para acompanhar “Soul Kitchen” é inevitável entender que na trajetória de Fatih Akin as temáticas ligadas aos encontros raciais, culturais, étnicos, etc, são problematizadas a partir da vertente que privilegia o modo pelo qual as diferenças são produtoras de vida e não motivo para destruição. Ou seja, Akin faz uma contundente crítica à xenofobia e a todas as formas de brutalidade que impedem a hospitalidade e dificultam os laços que inventam novas experiências culturais. Como tal, seu cinema busca uma linguagem na qual afetar o espectador significa provocar estranheza quando, numa estória, se mostra o preconceito e o sentimento de exclusão. No caso deste filme, Akin utiliza a comédia para afirmar um ponto de vista otimista, sem deixar de cutucar com vara curta as mediocridades da cultura pós-moderna.

Mas há um dado a mais que merece ser destacado. A trama se faz em torno de um lugar público (o bar/restaurante “Soul Kitchen”), ele mesmo um personagem, na medida em que abriga diversas tribos (e que tribos!) e se torna um objeto de muitos afetos e investimentos, metáfora da hospitalidade e das muitas maneiras de exercitar a vida. Música, comida, sexo, amores, dramas, falcatruas, bizarrices, o bar é palco de tudo isso. Sempre aberto (o quase sempre) e, próximo da desrazão. Numa boa.

Assim, somos apresentados ao perplexo e algo conturbado Zinos Kazantazakis, dono do dito restaurante e seus parentes afeitos às tradições gregas, a sua namorada Nadine, que quer alçar vôos mais distantes em outro país e conta em levar Zinos com ela, o irmão de Zinos, Illia, trambiqueiro de primeira hora que consegue uma condicional e pensa em explorar o irmão, os ajudantes de Zinos no bar, dentre eles Lucia, mulher forte e guerreira que vai de certo modo transformar a vida de Illia, os músicos que habitam o espaço em troca apenas de gratidão, a uma fisioterapeuta que logo encanta zinos pela sua graça e enorme disponibilidade em cuidar e, também, a um curiosíssimo cozinheiro, tão delicado na confecção dos pratos quanto agressivo em relação aos que discutem seus métodos... Figuraças que se embaralham e constroem uma intrincada estória, repleta de gags muito boas, diálogos saborosos, boas viradas e um estilo lisérgico de movimentos de câmera e fotografia.

Com tudo isso, sem ser excepcional, “Sul Kitchen” consegue surpreender agradavelmente pela sua ousadia. A direção opta por enquadramentos que destacam a luta de Zinos em salvaguardar a maneira algo delirante com que o bar se mantém, sua importância como lugar de encontros e a atmosfera de abrigamento que há na experiência que as pessoas fazem do espaço. O elenco está afinado. Moritz Bleibtreu encarna com graça o Zinos, as belas Pheline Roggan (Nadine) e Anna Bederke (Lucia) dão um toque interessante, especialmente a última. As músicas são gostosas e com ritmos bem dançantes.

“Soul Kitchen” traz uma boa luz. Aproveite!

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