
Depois de três temporadas de sucesso em São Paulo e uma em Belo Horizonte, o espetáculo O Caminho para Meca, de Athol Fugard - um dos dramaturgos mais importante da língua inglesa na atualidade -, estrelado por Cleyde Yáconis, com direção de Yara Novaes, estréia no dia 27 de fevereiro, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Além de Cleyde, estão no elenco Patrícia Gasppar e Cacá Amaral.
A peça, inédita no Brasil, conta a história de Helen Martins (Cleyde Yáconis), uma sul africana que encontra sua forma de expressão por meio da escultura. A personagem é inspirada em uma figura real, Helen Elizabeth Martins, autêntica outsider que produziu uma arte não convencional, nascida em 1897 e morta em 1976. Sua história, mote de inspiração do autor, já é por si só apaixonante. Nascida e criada em uma pequena comunidade branca da África do Sul, no meio do deserto, Helen é uma mulher de costumes conservadores e culto obrigatório da fé protestante. Um dia, ao descobrir nunca ter amado o bom homem com quem foi casada, abandona a igreja dos domingos porque deixou de crer e, ao ficar viúva, encontra em suas mãos de escultora o caminho de sua liberdade pessoal e a felicidade de criar sua "Meca".
De acordo com a diretora Yara de Novaes, "Helen é a personagem ideal para que Fugard possa mostrar a resistência da sociedade perante o diferente, a eterna busca da confiança em si mesmo e nos demais, os erros dos dogmatismos religiosos e, sobretudo, tratando-se de um autor sul africano escrevendo em 1984, denunciar o apartheid como forma de convivência".
Helen recebe a visita da amiga Elsa (Patrícia Gaspar), admiradora de suas obras, e, também, do pastor local (Cacá Amaral), que se preocupa com sua ausência na igreja e na pequena vila. Por meio desses encontros, discute-se a vida, a solidão, o talento, as dificuldades da idade, a amizade e a confiança das personagens.
Na opinião da diretora, "a peça é quase um rito de passagem realizado por todos os personagens, tanto o pastor protestante representante dessa comunidade, quanto Elza, a estrangeira de fato naquela circunstância geográfica e histórica”.
Além de falar de apartheid, segregação racial e racismo, a peça trata da negociação das diferenças. “Como os seres diferentes se encontram e se complementam”, diz Lúcia Romano. “Mostra, ainda, duas mulheres vivendo fases diferentes da vida – Helen sente que está chegando a algum lugar, que seu tempo está acabando; enquanto Elza está no meio do caminho e querendo desistir”, comenta Cacá Amaral.
O espetáculo tem uma estrutura de tragédia antiga, das unidades de ação, de tempo e de lugar. "Tudo acontece em tempo real, diz Yara de Novaes, arriscando que "talvez aí esteja a grande teatralidade da peça. "O espetáculo é norteado pelo jogo estabelecido entre os atores na cena. Toda a sua linguagem e, conseqüentemente, o seu significado brotam do fluxo natural e contínuo exigido pelas personagens e suas circunstâncias."
De acordo com Cleyde Yáconis, Helen é uma figura tão estranha quanto diferente. "Fiquei pasma depois que vi, pela internet, suas obras, sua casa. É surpreendente trabalhar com cimento e vidro moído, um trabalho brutal. Imagino como devem ter sido as mãos dessa mulher." Para ela, "a personagem não faz arte para conquistar a felicidade, mas sim por necessidade, e Helen precisava transbordar dentro dela. Teve a coragem de enfrentar ela mesma a audácia de cumprir seu destino, de ser diferente mesmo que isso custasse sua própria vida. O que me atrai na personagem é a audácia de ser o que é, de não se intimidar com a rejeição”.
Segundo a diretora Yara de Novaes - cujo mais recente trabalho em teatro foi como atriz, em Continente Negro e como diretora em Céu de Estrelas, de Fernando Bonassi -, existem duas Helens, a que existiu e a personagem. “Sobre a primeira, temos informações díspares. Nos fixamos na segunda, afinal estamos fazendo teatro.” Sobre ela, diz que tem atitudes absolutamente políticas, revolucionárias e transgressoras. “Não porque ela tenha essa intenção, mas porque o código estabelecido por ela para a própria vida traiu uma tradição. Mulher provocadora, ela suscitará nas pessoas o exercício da liberdade.” Yara completa: “A partir de certo momento da vida, Helen resolveu ter códigos próprios de existência, incluindo uma obra que resolveu fazer. Quando ela cria esses códigos próprios de vida, começa a se tornar uma estrangeira na cidade e essa condição de estranha é angustiante para ela”.
Sobre sua personagem, a atriz Patrícia Gaspar diz que “Elza se inspira na idéia libertária de Helen com relação a sua própria vida. As duas se encontram nesse espaço de libertação da mulher e se tornam dois pilares da mesma luta. Elas se assemelham nessa procura: uma de algo que vive, mas não sabe denominar e outra que tem o discurso, mas sofre com a dificuldade de viver”.
De acordo com Patrícia, “Helen vive essa situação em suas obras, em seu cotidiano, enquanto Elza possui o discurso, mas tem a dificuldade de viver suas idéias. No decorrer da peça, Elza compreende que só o discurso não é suficiente e reconhece que tem na amiga um exemplo de quem vive a liberdade. Apesar das diferenças, quando Elza chega à casa de Helen, elas se encontram na troca de idéias”, fala Patricia, completando que Elza ajuda Helen a reconhecer que existe uma obra em seu trabalho.
O convite para Yara de Novaes dirigir a montagem veio da produtora Fernanda Signorini, que se associou aos produtores da Mesa 2, Fernando Cardoso e Roberto Monteiro, para estrear a programação teatral do Teatro Cosipa Cultura, em São Paulo.
Em sua encenação, a diretora optou por uma condução naturalista, sem abandonar os elementos simbólicos intrínsecos ao teatro. Não há elipses de tempo, nem mudanças de cenários. O espetáculo tem uma estrutura de tragédia antiga, das unidades de ação, de tempo e de lugar. "Tudo acontece em tempo real”, diz a diretora, arriscando que, "talvez aí esteja a grande teatralidade da peça. O espetáculo é norteado pelo jogo estabelecido entre os atores na cena. Toda a sua linguagem e, conseqüentemente, o seu significado brotam do fluxo natural e contínuo exigido pelas personagens e suas circunstâncias.".
Athol Fugard nasceu em 1932 e é considerado um dos mais importantes dramaturgos contemporâneos. Em 1962 interessa-se pelas idéias de Grotowski, funda com atores negros o Serpent Players onde cria as suas peças, tornando-se a mais potente voz de protesto contra o apartheid no teatro.
Com John Kani e Winston Ntshona, os seus principais atores, tornam-se conhecidos em todo o mundo.
Com o fim do apartheid Fugard regressa às suas fontes de inspiração pessoais, mas os seus diários insistem sobre o papel do artista face à política e a sociedade, continuando a sua atividade não só como dramaturgo, mas encenando quase todas as estréia das suas peças e entrando muito regularmente como ator, repartindo o seu trabalho pela Europa e América onde os seus textos ganharam grande audiência. Suas dezenas de peças são montadas regularmente nos melhores teatros de Londres, Nova York e Johannesburgo.
Ficha Técnica:
Autor: Athol Fugard
Tradução: José Almino
Direção: Yara de Novaes
Elenco: Cleyde Yáconis, Patrícia Gasppar e Cacá Amaral
Iluminação: Telma Fernandes
Cenografia: André Cortez
Figurinos: Fabio Namatame
Trilha Sonora: Morris Picciotto
Fotógrafo: João Caldas
Músicos: Violoncelo – Dimos Goudaroulis, Voz – Marcelo Pretto,
Produção executiva: Silmara Deon e José Maria Pereira
Direção de Produção: Fernanda Signorini, Fernando Cardoso e Roberto Monteiro
Realização: Mesa 2 e Signorinimkt
Estréia para convidados: 26 de fevereiro
Local: Centro Cultural do Banco do Brasil – Espaço III (Rua Primeiro de Março, 66 - Centro)
Horários: quinta a domingo às 19h30
Preço: R$10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia)
Bilheteria: de terça a domingo, das 10h às 21h
Fone: (21) 3808-2020
Temporada: 27 de fevereiro a 12 de abril
Capacidade: 100 lugares
Classificação etária: 12 anos
Duração: 100 minutos
Por Daniella Cavalcanti / Assessoria de Imprensa
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